Columbia University :: Brown bag seminar (Oct. 1st, 1pm)

Brazil Brown Bag Seminar Series – Solid Organizations in a Liquid World
October 1 @ 1:00 PM – 2:00 PM

Join the Center for Brazilian Studies in its Brazil Brown Bag Seminar Series. The lecture, entitled “Solid Organizations in a Liquid World,” will be given by political scientist Lucia Nader.

How professional rights-based groups are reacting to the multiplicity of information and agendas, the new roles of individuals and the crisis of state institutions made even more visible during recent mass protests and in new social movements. Focusing on Brazil, the United States, and Europe, Lucia is researching how organizations and donors are adjusting to an increasingly agitated social landscape. More at www.liquidworld.info

Lucia Nader. Currently a fellow with the Open Society Foundations, Lucia was until recently the executive director of Conectas Human Rights, a Brazilian NGO that works to strengthen the work of human rights activists in Latin America, Africa, and Asia. Previously, she served as the executive secretary of the Brazilian Foreign Policy and Human Rights Committee, and in 2009, she was named a Social Entrepreneur by Ashoka, in recognition of her work to hold the Brazilian government accountable for its foreign policy regarding human rights violations. She received her master’s degree in development and international organizations from the Paris Institute of Political Studies (Sciences-Po).

ilas

Leave a Comment

Filed under Seminários

Pesquisa :: Manifestação política em São Paulo, 16/08/2015

A pesquisa completa está disponível em http://gpopai.usp.br/pesquisa/.

Pesquisa com os participantes do protesto do dia 16 de agosto de 2015 sobre soluções para a crise de confiança nas instituições e atitudes políticas em temas morais.Foram realizadas entrevistas com manifestantes maiores de 16 anos, entre as 12:00 e as 17:30 do dia 16 de agosto e distribuídas por toda a extensão da Avenida Paulista.
Resultado de 405 entrevistas; margem de erro máxima com 95% de confiança: 4.9%

Leave a Comment

Filed under Pesquisas

El País :: Um desacordo entre manifestantes e os convocantes dos protestos?

Manifestantes percebem a corrupção afetando tanto Governo como oposição, a despeito do discurso seletivo dos grupos que tem chamado as manifestações. Também defendem serviços públicos universais e gratuitos como saúde e educação

PABLO ORTELLADO / ESTHER SOLANO / LUCIA NADER 18 AGO 2015 – (Original aqui e pesquisa completa aqui)

No último domingo, 16 de agosto, conduzimos mais uma pesquisa junto aos manifestantes que estavam nas ruas protestando contra o Governo federal e a situação política do país. Concluímos que, pelo menos em São Paulo, os manifestantes percebem a corrupção afetando tanto Governo, como oposição, a despeito do discurso seletivo dos grupos que tem chamado os protestos. Também destoando dos grupos liberais que lideram os protestos e pregam o Estado mínimo, os manifestantes defendem serviços públicos universais e gratuitos como saúde e educação. Esta pesquisa dá sequência a outra, que fizemos na manifestação do dia 12 de abril, que mostrou que a insatisfação e descrença dos manifestantes não estava concentrada na presidente Dilma e no PT, mas se estendia a todo o sistema político, incluindo todos os partidos, ONGs, movimentos sociais e a imprensa [1].

Apesar da descrença no sistema político ser generalizada, os grupos que lideram os protestos estão se empenhando em dar um tratamento seletivo à indignação, enfatizando a corrupção do Governo federal e poupando atores políticos como o presidente da Câmera Eduardo Cunha, que podem ser aliados úteis para um processo de impeachment.

Por isso, medimos a percepção da gravidade de escândalos de corrupção envolvendo governo e oposição e também a percepção de envolvimento de líderes políticos dos dois campos. Como era de se esperar, a quase totalidade dos manifestantes (99%) consideram grave os escândalos do mensalão e da Lava Jato. No entanto, constatamos que os escândalos de corrupção que envolvem o PSDB também são percebidos como graves. 80% dos manifestantes consideram grave o mensalão tucano e 87% consideram grave o escândalo de corrupção no metrô e na CPTM em São Paulo.

Quando investigamos a percepção do envolvimento individual de políticos dos dois campos com corrupção, a percepção é um pouco diferente, embora não tanto como se poderia esperar. 90% dos manifestantes consideram a presidente Dilma corrupta e 77% consideram o prefeito Fernando Haddad corrupto, mas uma parcela expressiva de 42% dos manifestantes considera também o governador Geraldo Alckmin corrupto e 38% consideram corrupto o senador Aécio Neves.

A descrença no sistema político como um todo, que tínhamos capturado na pesquisa da abril, poderia dar lugar a dois tipos de soluções: soluções que buscam ampliar e aprofundar a democracia ou saídas antipolíticas para a crise. A literatura sociológica, por exemplo, costuma apontar a valorização da democracia interna de movimentos e associações cívicas como base para uma reforma profunda do sistema democrático.

Assim, investigamos se os manifestantes estavam mais de acordo com soluções antipolíticas, como entregar o poder para militares, juízes ou atores de fora do jogo político tradicional, ou se, ao contrário, buscavam soluções que buscam aprofundar a democracia, com mais participação, seja institucional (por meio de plebiscitos) ou pela sociedade civil organizada (participação em ONGs e movimentos).

Os resultados, neste caso, foram mistos. 56% concordam totalmente ou em parte que para solucionar a crise é preciso entregar o poder para alguém que esteja fora do jogo político. 28% concordam totalmente ou em parte que a solução é entregar o poder para os militares e 64% para um juiz honesto. Por outro lado, 77% concordam total ou parcialmente que é preciso ampliar a participação por meio de mecanismos como o plebiscito e 59% por meio do fortalecimento de ONGs e movimentos sociais.

Buscamos também investigar se a indignação que alimentava as manifestações de 2015 tinha ligação com aquela que estava na base das de junho de 2013, a despeito da profunda diferença de orientação política das lideranças e da composição social dos protestos (formado por pessoas mais velhas e mais ricas). Diversas pesquisas de opinião tinham mostrado que as reivindicações de junho de 2013 consistiam numa combinação de rejeição do sistema representativo e demandas por mais e melhores direitos sociais, em particular, saúde, educação e transporte.

Assim, buscamos investigar em que medida os manifestantes concordavam com a universalidade e gratuidade desses serviços públicos que atendem direitos sociais. A questão não era apenas importante porque sugeria conexões profundas e mais ou menos ocultas entre as duas ondas de protesto, mas porque mostrava um grande desacordo entre o que pensam os manifestantes e o que pensam algumas das lideranças dos protestos, que tem uma orientação ultraliberal.

Constatamos índices muito elevados de defesa da universalidade e da gratuidade dos serviços públicos. Entre os manifestantes, 97% concordam total ou parcialmente que os serviços públicos de saúde devem ser universais e 96% que devem ser gratuitos. Já 98% concordam total ou parcialmente com a universalidade da educação pública e 97% com a sua gratuidade. Até mesmo uma demanda social recente e algo heterodoxa como a gratuidade do transporte coletivo (a “tarifa zero”) encontra 49% de apoio total ou parcial entre os manifestantes.

Por fim, buscamos investigar em que medida e de que maneira os manifestantes incorporavam a tendência de moralização da política conhecida como “guerras culturais” [2]. Essa tendência consiste tanto na proeminência cada vez maior de temas morais na agenda política (como drogas, direitos dos homossexuais, aborto e a pena capital), como no tratamento moral de questões sociais e políticas.

Assim, investigamos a concordância dos manifestantes com frases que expressam algumas dessas abordagens morais na política. Além de verificar a difusão e alcance dos discursos morais, queríamos saber se abordagens punitivas são mais frequentes em temas que envolvem relações entre as classes sociais (como desigualdade, criminalidade e imigração) e se, em temas relativos a direitos individuais (como homofobia, direitos das mulheres e drogas), predominam abordagens mais compreensivas.

Constatamos que em temas que envolvem relações entre as classes sociais, 70% concorda total ou parcialmente que “é justo que quem estudou e se esforçou mais na vida tenha alguns privilégios”; 86% concorda total ou parcialmente que “a melhor maneira de conseguir paz na sociedade é aumentando a punição aos criminosos” e 80% concorda total ou parcialmente que “negros não devem usar a cor da pele para conseguir privilégios como cotas raciais”.

Por outro lado, constatamos também que em termos de liberdades e direitos individuais (talvez porque podem envolver pessoas da mesma classe social), prevalecem posturas mais compreensivas e tolerantes. 79% dos manifestantes discordam que “haveria menos estupros se as mulheres tomassem mais cuidado e não usassem roupas curtas”; 61% discorda que “relacionamentos entre gays não são naturais e gays não deviam expressar afeto em público” e até mesmo 50% concorda total ou parcialmente que “as pessoas devem ter o direito de fumar maconha legalmente desde que não prejudiquem os demais”.

Notas:
[1] Esther Solano; Lucia Nader; Pablo Ortellado. “Um protesto contra todo o sistema político?” El País. 14 de abril de 2015. Disponível aqui.
[2] Pablo Ortellado “Guerras culturais no Brasil” Le Monde Diplomatique Brasil.Disponível aqui.
Pablo Ortellado é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP;Esther Solano é professora de Relações Internacionais da UNIFESP; Lucia Naderé cientista política pela Sciences Po-Paris e fellow da Fundação Open Society.

Leave a Comment

Filed under Entrevistas

El País :: A discord between demonstrators and the organizers of antigovernment protests in Brazil?

PABLO ORTELLADO / LUCIA NADER/ ESTHER SOLANO*

Demonstrators recognize that both the government and the opposition are guilty of corruption, despite the selective discourse of the groups coordinating the demonstrations. Surprisingly, they also support universal and free public services such as healthcare and education.

On August 16, we conducted a survey with demonstrators who were on the streets protesting against the federal government and the political situation in the country. We concluded that, at least in São Paulo, the demonstrators recognize that both the government and the opposition are guilty of corruption, despite the selective discourse of the groups that organized the protests. Also at odds with the right wing groups that are leading the protests and preach small government, the demonstrators support universal and free public services such as healthcare and education. This survey follows up on another one that we conducted at the demonstration on April 12, which revealed that the dissatisfaction and distrust of the demonstrators was not focused on President Dilma Rousseff and her Workers’ Party (PT), but extended to the entire political system, including all parties, NGOs, social movements and the press [1].

Although the distrust in the political system is widespread, the groups leading the protests are doing their best to selectively channel the indignation, emphasizing the corruption of the federal government and sparing other political actors, such as the president of the Lower House of Congress, Eduardo Cunha, who could be useful allies in an impeachment process.

Accordingly, we measured perceptions of the severity of corruption scandals involving the government and the opposition and also perceptions of the involvement of the political leaders of both sides. Nearly all the demonstrators (99%) considered the corruption scandals involving the ruling Workers Party to be serious — both the “mensalão” vote-buying scandal and the “Lava Jato” kickback scheme. However, we also found that the corruption scandals involving the opposition Social Democratic Party (PSDB) are also perceived as serious. Of the scandals in which the PSDB is implicated, 80% of the demonstrators considered the “mensalão tucano” campaign funding scheme to be serious and 87% considered the price-fixing of commuter rail construction contracts in São Paulo to be serious.

When we examined perceptions of the individual involvement of politicians from the two sides in corruption, things were a little different, although not as much as might have been expected. 90% of the demonstrators considered President Rousseff of the PT to be corrupt and 77% considered Mayor Fernando Haddad of the PT to be corrupt, but a sizable portion (42%) of the demonstrators also considered Governor Geraldo Alckmin of the PSDB to be corrupt and 38% considered Senator Aécio Neves of the PSDB to be corrupt.

The distrust in the political system as a whole, captured in the April survey, could pave the way for two different types of solutions: those that attempt to broaden and deepen democracy or non-political solutions to the crisis. The sociological literature, for example, usually identifies the emphasis on the internal democracy of civic associations and social movements as the basis for an in-depth reform of the democratic system.

As such, we inquired whether the demonstrators were more in agreement with the non-political solutions, such as giving power to the military, judges or actors outside traditional politics, or if instead, they wanted solutions that attempt to strengthen democracy, with more participation – whether institutional (through plebiscite) or by organized civil society (participation in NGOs and movements).

The results, in this case, were mixed. 56% agreed fully or in part that, to solve the crisis, it is necessary to hand power to someone outside the political system. 28% agreed fully or in part that the solution is to give power to the military and 64% said to an honest judge. Meanwhile, 77% agreed in full or in part that participation needs to be increased through mechanisms such as plebiscite and 59% said by strengthening NGOs and social movements.

We also sought to determine whether the indignation driving the demonstrations of 2015 is similar to the concerns that prompted the protests of June 2013, despite the profound difference in the political orientation of the leaders and the social composition of the protests (formed by older and richer people). Various opinion polls have shown that the indignation in June 2013 consisted of a combination of a rejection of the representative system and demands for more and better social rights, particularly healthcare, education and transport.

As such, we sought to investigate to what extent the demonstrators agreed that public services that provide social rights should be universal and free. This question was important not only because it indicated profound and more or less hidden connections between the two waves of protests, but also because it revealed a major discord between the
beliefs of the demonstrators and those of the leaders of the protests – who have a strong neoliberal orientation.

We encountered extremely high levels of support for universal and free public services. Among the demonstrators, 97% agreed in full or in part that healthcare should be universal and 96% said it should be free. Moreover, 98% agreed in full or in part that education should be universal and 97% said it should be free. Even the recent social and somewhat heterodox demand for free public transport (called “tarifa zero” or “zero fare” in Brazil) was supported in full or in part by 49% of the demonstrators.

Finally, we sought to investigate the extent and the way in which the demonstrators have incorporated the current trend of moralization of politics known as “culture wars” [2]. This trend consists of both an increasing prominence of moral issues on the political agenda (such as drugs, gay rights, abortion and capital punishment) and a moral treatment of social and political matters.

As such, we asked whether the demonstrators agreed with a series of phrases that express some of these moral attitudes in politics. In addition to identifying the scope and reach of the moral discourses, we wanted to know whether punitive attitudes were more frequent for issues involving relations between social classes (such as inequality, criminality and immigration) and whether, on issues related to individual rights (such as homophobia, women’s rights and drugs), more permissive attitudes predominated.

We found that on issues involving relations between social classes, 70% agreed in full or in part that “it is fair that people who have studied and worked hard in their lives should have some privileges”; 86% agreed in full or in part that “the best way to achieve peace in society is through harsher punishments for criminals” and 80% agreed in full or in part that “blacks should not use their skin color to obtain privileges such as racial quotas”.

Meanwhile, we also found that more permissive and tolerant attitudes prevail on matters of individual rights and freedoms (perhaps because they can involve people of the same social class). 79% of the demonstrators disagreed that “rape would be less frequent if women were more careful and didn’t wear revealing clothing”; 61% disagreed that “relationships between gays are unnatural and gays should not show affection in public” and 50% even agreed in full or in part that “people should have the right to smoke marijuana legally provided they do not harm others”.

*Original version published in El País, Brazil (August, 18th, 2015).

Footnotes:
[1] Esther Solano; Lucia Nader; Pablo Ortellado. “Um protesto contra todo o sistema político?” El País. April 14, 2015. Available here.
[2] Pablo Ortellado “Guerras culturais no Brasil” Le Monde Diplomatique Brasil. Available here.
Pablo Ortellado is a professor of the Public Policy Management course at the School of Arts, Sciences and Humanities of the University of São Paulo (EACH-USP) and an Open Society Foundations fellow; Esther Solano is a professor of International Relations at the Federal University of São Paulo (UNIFESP); Lucia Nader is a political scientist at Sciences Po-Paris and an Open Society Foundations fellow.

Leave a Comment

Filed under Artigos em Jornais, Pesquisas

Entrevista :: Joan Subirats – “Vivemos uma mudança de época e não há outra saída a não ser mudarmos também”

Joan Subirats é um dos grandes intelectuais espanhóis da atualidade, professor da Universidade Autônoma de Barcelona e coordenador do IGOP – Instituto de Governo e Políticas Públicas. De origem catalã, tem se dedicado a estudar a crise das instituições representativas e suas consequências para a democracia tal como conhecemos hoje.

No livro “Otra Sociedad, otra Política? – de «no nos representan» a la democracia de lo común”, publicado logo após os grandes protestos que sacudiram a Espanha em 2011, Subirats advoga que as novas tecnologias de comunicação abalaram fortemente partidos, sindicatos e outras organizações “intermediárias”. Não teríamos outra alternativa a não ser passar por mudanças radicais na forma como nos relacionamos e lidamos com a política.

Em entrevista realizada em Barcelona no último dia 2 de junho, Subirats reafirmou sua crença, à partir da análise dos protestos que ocorreram nos últimos anos em vários países, da crise pela qual passam as instituições estatais e dos efeitos desse novo contexto para as organizações “tradicionais” e para os “novos movimentos” da sociedade civil.

Lucia Nader (LN) – Como você explica os protestos que aconteceram recentemente em vários países do mundo? O que eles tem em comum?

Joan Subirats (JS) – O que vivemos hoje é uma mudança de época, não uma crise, como muitos dizem. Quando vivemos uma crise, podemos esperar que passe, não é necessário mudar paradigmas ou conceitos. No entanto, quando vivemos uma mudança de época, como agora, não há saída a não ser mudar, se adaptar.

As mudanças tecnológicas que acompanham a internet provocam uma crise nas formas tradicionais de intermediação das relações humanas – e de representatividade democrática, que não deixa de ser uma forma de intermediação. Esse é o elemento comum entre muitos destes protestos e que abala fortemente a lógica da democracia representativa. Na Espanha isso se deu sob a bandeira do “no nos representan” (“não nos representam”) e que traz uma dupla mensagem. A primeira, de dizer aos eleitos que eles não estão fazendo o que nos prometeram e lembrar que o que eles fazem é em nosso nome. E a segunda, de afirmar que os eleitos não nos representam, pois não passam pelas mesmas situações e condições de vida pelas quais passamos. São muito diferentes da maioria da população e há uma “crise de semelhança”, um dos pilares que sustentavam a máquina eleitoral.

LN – Mas o que há de novo nisso tudo?

JS – A facilidade de não ter que passar por canais institucionais tradicionais contribuiu para que os protestos explodissem. Dou aqui um exemplo. Dia 14 de maio de 2011, houve uma manifestação contra os cortes de investimentos públicos. Esse protesto reuniu 4 vezes mais gente do que do que a grande manifestação do dia seguinte, o famoso 15M. Mas ninguém se lembra. Por que? Por que eram sindicatos, com os cartazes de sempre, organizados da mesma maneira como se organizam há décadas. Por outro lado, todos lembram do 15M, pois foram novos atores e novas formas de se organizar. Mesmo se numericamente foi menos significativo.

Naquela semana recebi uma ligação de um funcionário do governo pedindo conselhos: com qual liderança devemos dialogar? Quais suas demandas concretas? Como podemos incorporá-las e trazê-los para perto? Essas são perguntas do século passado.

Passamos de uma lógica de ação coletiva a uma lógica de “ação conectiva”. Há uma dificuldade imensa de continuarmos a aplicar os parâmetros que utilizamos até agora, como as noções de identidade, unidade e organização em torno de objetivos.

Além da novidade tecnológica, as mobilizações recentes foram baseadas em estruturas e formas de organização menos rígidas, em uma lógica de latência e “pertencimento múltiplo” (“multi-membership”). A adesão se deu em torno de campanhas e bandeiras e não de ideologias tradicionais como esquerda e direita. Os novos movimentos aparecem e desaparecem, não querem necessariamente ter uma unidade ou identidade perene. Preferem falar em “confluência”, em um momento específico, e tem uma “visão estética” com relação ao Estado.

Muitas vezes levantam a bandeira do “façamos nós mesmo” e, por isso, usam tantas expressões na primeira pessoa do plural – como “somos a mudança”, “podemos”, “ganhemos” – e não mais expressões que tínhamos antigamente – como “incidir”, “resistir”, etc. Os novos movimentos buscam construir o novo, de forma autônoma. Acreditam que o Estado tenha sido capturado (por interesses privados de poucos) e que tenhamos que construir novas formas de organização autônoma. Um exemplo disso é a cooperativa “Somos Energía”, uma cooperativa que provê energia elétrica alternativa aos seus 20 mil apoiadores, em cidades espanholas, para que não dependam da companhia de energia estatal.

LN – E por que há hoje tanta desconexão entre o que o indivíduo espera da democracia e aquilo que faz o Estado?

JS – Vivemos hoje uma individualização da vida, como diz Manuel Castells. Isso tem relação com o avanço tecnológico, mas não apenas. O funcionamento da democracia moderna e do Estado tal como conhecemos é baseado em algumas categorias que hoje estão abaladas. Antes, por exemplo, era mais fácil categorizar a sociedade em classes sociais. Hoje, com a precarização e individualização da força de trabalho, como fazemos isso? Outro exemplo é a categoria de “família”. Hoje, na Espanha, há 16 tipos distintos de famílias. E a família hetero, com filhos, não é mais a majoritária.

A estrutura estatal foi pensada relacionando qualidade com homogeneidade. Promover a igualdade era promover a homogeneidade e assim diminuir a heterogeneidade da sociedade. Hoje, o contrário de igualdade é desigualdade e o contrário de homogeneidade é a diversidade, algo muito valorizado.

A sociedade atual é baseada em 3 valores básicos: autonomia pessoal, igualdade e diversidade – e não mais liberdade e igualdade, os dois de antes.

Se tem algo que deveríamos aprender com os mercados é que quanto mais personalizado, melhor é o serviço prestado. O sistema Zarista (em referência à Zara) é personalizado – e talvez por isso vendam tanto. Não é mais o sistema Fordista, despersonalizado, homogêneo. A sociedade vive hoje no ‘Zarismo’ – e todas suas contradições – enquanto o Estado parou no Fordismo.

Lembro de um cartaz do 15M que dizia: “Democracia, te quiero – pero ultimamente te siento un poco ausente”. Isso ilustra bem o sentimento de que a democracia é algo bom, mas que a distância com relação às demandas individuais está grande demais.

LN – Essa mudança de época e a crise de intermediação afeta de alguma maneira as organizações não-governamentais “tradicionais”?

JS – Sim, afeta. Ao menos na Espanha, muitas dessas organizações viveram os protestos com um sentimento confuso, de frustração, e se perguntando por que não tem tanta força de atração e mobilização. Pararam para pensar em como podem recuperar de alguma maneira a “representatividade” que um dia tiveram, mesmo que seja com relação a grupos muito específicos, minorias, etc.

Algumas organizações se profissionalizaram demais. Além disso, se transformaram em um “quasi-estado”. Mas esse “ONGeísmo” foi utilizado pelo Estado apenas para ampliar a prestação de serviços e não para permitir que as organizações passassem a ser “co-produtoras” de políticas públicas. Ainda está muito arraigado o pressuposto de que apenas o Estado representa o interesse geral, público. Mas os novos movimentos defendem a ideia de que o público não se esgota no institucional e de que há uma capacidade coletiva de enfrentar problemas comuns, de todos. E isso pode passar ou não pelas instituições estatais.

LN – Mas, na prática, qual a diferença entre as “organizações tradicionais” e esses “novos movimentos”?

JS – Acho que os novos movimentos não tem como marca principal a sua eficácia profissional. O que é central para eles é a capacidade que tem de empoderar as pessoas e convertê-las em ativistas. Não são movimentos guiados por uma perspectiva de “resolução de problemas” (problem-solver), mas sim por uma perspectiva de fortalecimento do indivíduo. Isso se dá com base em casos individuais muito específicos que, somados, revelam e dão visibilidade a problemas estruturais e coletivos.

Um exemplo dessa dinâmica é a Plataforma de Afectados por la Hipoteca (PAH), que se fortaleceu muito depois dos protestos de 2011 e se encaixaria no que eu chamo de “novos movimentos”. Eles fazem um trabalho importante de advocacy política, propõem projetos de lei, levam casos à Corte de Estrasburgo, etc. Mas, ao mesmo tempo, ocupam prédios públicos ou em desuso e os adaptam para as famílias que não tem casa, fazem atos públicos de grande visibilidade (incluindo escrachos) e focam grande parte da energia em fazer com que as vítimas se tornem ativistas da causa, indo além de seus casos individuais. Quando uma vítima procura a PAH, ela é atendida e conversa com outra pessoa que sofreu um abuso parecido – e não necessariamente com um “especialista”, o que provavelmente aconteceria em uma organização mais tradicional. Isso faz parte de uma tentativa de recuperar a identidade individual que perdemos para o Estado, mostrar que a solução quase sempre não é técnica, mas sim política e coletiva.

De alguma maneira, acredito que os novos movimentos buscam manter vivo um outro lema do 15M, o “sí, se puede!” (“sim, podemos!”) ao criar um efeito dominó de incorporar, o tempo todo, novos apoiadores às suas causas.

LN – E quais seriam então os benefícios, o valor agregado, de ser uma instituição ou organização “sólida” e profissional – e não um movimento desse tipo?

JS – As organizações são capazes de criar raízes, espaços de sistematização de experiências, memória institucional e ação especializada. A desvantagem talvez seja a rigidez que acompanha tudo isso. Vejo isso na própria organização que eu coordeno. Temos que construir organizações que mantenham essas vantagens, mas sejam mais “líquidas”, mais capazes de se adaptar às mudanças da sociedade.

Talvez isso passe por criar organizações mais horizontais que partam de uma lógica de conhecimento expandido e não tão fragmentado. Isso tem impacto direto em tentarmos nos estruturar de outra maneira que não sejam áreas fixas, ou programas específicos, e ter mais capacidade de “fertilização cruzada” da expertise. Quem sabe trabalhar muito mais por desafios, do que por temas, áreas, estratégias.

É necessário, também, repensarmos a forma como nos comunicamos. Tanto com relação ao público externo, como entre as próprias pessoas da equipe. Qual o impacto no fluxo de trabalho de se escrever um texto ou publicação institucional pelo wiki, de forma colaborativa, por exemplo? É algo acessório ou impacta nos processos internos?

Por fim, temos que repensar a hierarquia dentro das organizações. Não estou dizendo que ela não deva existir, mas talvez ela tenha que ser baseada não no status que se tem, mas pelo valor que as outras pessoas da equipe atribuem ao seu trabalho, pela sua trajetória, seu conhecimento, etc. Pelo valor que aporta à organização. É a lógica pela qual opera o twitter, por exemplo. Você segue pessoas que são “nucleares” (nodes), que aportam informação e opinião que realmente importa. Deve ter algo parecido com isso em formas modernas de gestão de equipes e organizações.

Leave a Comment

Filed under Entrevistas

Carta Capital :: A Espanha das ruas às urnas: e agora?

O país aguarda para saber se os novos partidos conseguirão transformar o sistema ou vão sucumbir diante do poder

por Lucia Nader — publicado na Carta Capital em 02/06/2015 03h53, última modificação 02/06/2015 17h45

Há uma semana a Espanha acordou caminhando à esquerda. Ada Colau foi eleita prefeita de Barcelona e, em Madri, Manuela Carmena foi a segunda colocada e deve ser a prefeita de fato. Ada é ativista antidespejo e uma das protagonistas do movimento 15M e dos protestos de 2011, que fizeram tremer as praças espanholas. Manuela é ex-juíza e defensora dos direitos humanos desde a luta contra a ditadura franquista. As duas representam uma renovação na política espanhola e trazem ao poder o eco das vozes que tomaram as ruas do País há 4 anos. Trazem também um ar fresco para as eleições gerais que acontecerão em novembro e a um mundo descrente na política.

Mas o que há de realmente novo na terra do rei Juan Carlos e de seu filho Felipe VI?

As duas campanhas foram marcadas por inovações e são frutos de coalizões formadas por partidos novos ou alternativos na cena espanhola. Isso, em si, já é uma novidade em um país que, desde 1982, alimenta o bipartidarismo entre o Partido Socialista Obrero Español (PSOE) e o Partido Popular (PP).

A forma como as coalizões se organizaram e construíram seus programas de governo também é uma novidade. O Barcelona en Comú, de Ada Colau, se define como uma plataforma cidadã com “estrutura dinâmica, sustentável e participativa”. Seu coração são as assembleias abertas por bairro e de onde surgem as propostas levadas à plenária. O Ahora Madrid, por sua vez, se define como iniciativa que busca “mais transparência, mais democracia e mais participação”, o que o levou a elaborar colaborativamente seu programa de governo, incluindo consulta aberta pela internet. Os dois se autoproclamam movimentos cidadãos, o que mexe com o imaginário popular e reforça a ligação que tem com movimentos sociais.

O Podemos, partido que surgiu dos protestos de 2011, compõe as duas coalizões. Mais do que isso, aparece muitas vezes como o grande protagonista das vitórias, o que tanto Ada Colau quanto Manuela Carmena fazem questão de negar. Elas relembram repetidamente a pluralidade de força e vozes que as elegeram e tentam driblar o “pablismo” – nome dado pelos críticos do Podemos ao personalismo de Pablo Iglesias, seu secretário-geral, eleito deputado europeu.

Não há dúvida de que as eleições expressaram a canalização de demandas por mudanças e da energia das ruas. Também é fato que se respira o ar da novidade e que houve uma “repolitização da vida” para ao menos parte da sociedade, como descreveu o pesquisador espanhol Amador Fernández Savater. O aumento de eleitores que compareceu às urnas nas últimas eleições refletem essa afirmação.

Mas, passadas as eleições, há quem aposte que o novo sucumbirá ao sistema, sem conseguir transformá-lo.

O desafio começa pela necessidade de dar concretude aos programas de governo com base nos quais foram eleitas. O contundente “Si, se puede!” ouvido à exaustão nos comícios e atos de apoio às candidatas dará lugar à priorização de políticas, orçamento e interlocutores. A luta contra a corrupção, central nos dois programas, deverá ir além da alegação de que “os bancos não têm nossos telefones e não podem nos comprar”, como disse Lorena Ruíz-Huerta, braço direito de Manuela Carmena, durante o ato de encerramento de campanha em Madri.

Outro desafio latente é a necessidade de se estabelecer alianças. A mais evidente é com o socialista PSOE, partido que até pouco tempo tinha o monopólio da esquerda e continua sendo o segundo partido mais votado nacionalmente, atrás do PP. Um de seus líderes, Pedro Sanchez, disse claramente que não pretende radicalizar a agenda do partido. Segundo ele, cabe às novas forças se adaptarem à “agenda de centro-esquerda e voltada à maioria social” que seu partido representa.

A forma como se dará a relação com os movimentos sociais, daqui para frente, é também incerta. Será preciso criatividade e jogo de cintura para absorver as expectativas daqueles que semearam a mudança. Nada garante que as assembleias e processos de construção coletiva que marcaram as campanhas conseguirão subir os degraus dos palácios oficiais.

Além disso, como em qualquer País, a sociedade civil organizada é diversa e a escolha dos interlocutores principais terá de acontecer e poderá frustrar atuais apoiadores. A influência que o Podemos exercerá nas novas gestões poderá, ainda, afastar alguns movimentos sociais, pois o partido está longe de ser unanimidade entre eles.

Por fim, a crise de representação e a confiança nas instituições políticas não desaparecerá da noite para o dia. A começar pela campanha de Manuela Carmena, que alegou não representar a ninguém, mas sim ser portadora de apenas “um pacto, um compromisso, dado que até agora a representação só nos trouxe mentiras e descrença – e, por isso, vamos governar a nós mesmos”. O sistema parlamentar no qual ela se inserirá não é, ao menos por enquanto, adaptado a esse ideal e depende de mecanismos de representação.

O que está então em jogo é a capacidade de novos atores lidarem com velhos desafios da política e não se transformarem em partidos tradicionais – movidos pela necessidade de se perpetuarem no poder e cada vez mais distantes dos cidadãos e daqueles que os elegeram.

Aos olhos atrevidos de uma brasileira, uma pista está em não permitir que os movimentos sociais se esvaziem e tornem-se menos reivindicadores, agora que seus pares estão no poder. Dessa distinção de papéis – na qual aos movimentos cabe uma vigilância crítica – depende a saúde da democracia. E não só na Espanha.

As eleições gerais de novembro, quando será escolhido o primeiro-ministro, serão um bom termômetro do fôlego das candidaturas cidadãs. Até lá seguem as apostas se o novo mudará o sistema ou se será mudado por ele.

*Lucia Nader é cientista política pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris – Sciences Po e atualmente bolsista da Fundação Open Society. Estuda a relação entre movimentos sociais, organizações da sociedade civil e instituições políticas. Está na Espanha acompanhando as eleições e seus desdobramentos

Leave a Comment

Filed under Artigos em Jornais, Eleições na Espanha

Folha :: Movimentos sociais subvertem bipartidarismo em eleição na Espanha

Publicado na Folha de São Paulo, em 24/05/2015

Por Lucia Nader e Pablo Ortellado

Há exatos 4 anos, milhões de espanhóis tomaram as praças do país contra as medidas de austeridade propostas pelo então primeiro ministro socialista, José Luis Zapatero, exigindo uma “democracia real já”. Slogans como “Não nos representam” e “Nossos sonhos não cabem nas urnas”, disseminaram-se nos acampamentos em praças como o da Porta do Sol em Madri ou o da praça Catalunha em Barcelona.

Apesar dos slogans, uma parte dos manifestantes resolveu apostar na regeneração das instituições públicas participando do processo eleitoral – no ano passado, nas eleições para o parlamento europeu e, agora, nas eleições para os municípios e comunidades autônomas espanholas. Nas eleições europeias de 2014, duas iniciativas “cidadãs” e contra o establishment bipartidário espanhol entraram na disputa: o catalão Partido X e o Podemos, baseado em Madri.

Embora o Partido X não tenha conseguido votos suficientes para eleger eurodeputados, o Podemos conseguiu eleger cinco. Meses depois, algumas pesquisas de opinião já mostravam o novo partido como a maior força política em uma eventual eleição nacional.

O sistema bipartidário que desde o fim da ditadura franquista, em 1978, havia oposto conservadores do Partido Popular e progressistas do Partido Socialista Espanhol foi subvertido por novas forças políticas que diziam expressar a indignação que emergiu nos protestos de 2011.

A emergência de novos atores não se deu apenas à esquerda do espectro político. O Ciudadanos, partido mais antigo e de centro-direita, apareceu renovado e se expandiu prometendo a entrada na política de políticos não profissionais, de novas gerações e sem vínculos com a corrupção.

Candidaturas cidadãs

A tentativa dos movimentos sociais de regenerar a política se expressou nas atuais eleições em amplas coalizões que uniram, além do Podemos, ativistas, coletivos e partidos políticos alternativos.

As autodenominadas “candidaturas cidadãs” tiveram excelente desempenho nas duas principais cidades espanholas. Em Barcelona, Ada Colau, ativista antidespejo com longa participação nos movimentos sociais, venceu as eleições pela coalizão Barcelona en Comú, conquistando 11 das 30 cadeiras (concejales) em disputa. Na capital, a coalizão Ahora Madrid, apresentou a candidatura de Manuela Carmena, juíza aposentada, com histórico na luta pelos direitos humanos. A coalizão de Carmena ficou em segundo lugar, com 20 das 57 cadeiras em disputa, contra 21 conquistadas pelo Partido Popular. Apesar da vitória, o Partido Popular, perdeu a maioria absoluta e sofre seu maior golpe em 26 anos de poder em Madri. Há ainda a possibilidade de um acordo entre os partidos de esquerda que poderia levar Carmena a ser a prefeita de fato.

As duas coalizões roubaram a cena durante a campanha eleitoral e prometeram mudanças drásticas na forma de se fazer política. Já se diziam vitoriosas por terem elaborados seus programas de governo de forma colaborativa, serem autofinanciadas e terem como principais mensageiros “pessoas comuns” e não políticos profissionais.

Os 35 milhões de eleitores que foram hoje às urnas abriram a porta para uma profunda reestruturação do sistema partidário espanhol. A “geração das praças” compareceu às urnas, concorreu por elas, e aumentou a pressão para que as instituições políticas se renovem e sejam mais porosas às demandas que vem das ruas.

***
Lucia Nader é cientista política pela Sciences Po-Paris e Pablo Ortellado é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP. Ambos estão na Espanha, acompanhando as eleições e suas relações com os movimentos sociais.

Leave a Comment

Filed under Artigos em Jornais, Eleições na Espanha

El País :: Um protesto contra todo o sistema político?

PABLO ORTELLADO / ESTHER SOLANO / LUCIA NADER – Publicado no El País em 14/05/2015

Durante a manifestação do dia 12 de abril, realizamos uma pesquisa de opinião com 571 manifestantes. Queríamos testar duas hipóteses. A desconfiança partidária constatada por outras pesquisas, no protesto de 15 de março, se limitaria ao PT ou se estenderia a todo o sistema político? As novas mídias e um comentarismo polemista estão emergindo como fontes centrais de formação da opinião política?

Com relação aos partidos e aos políticos, constatamos, entre os manifestantes, uma aguardada desconfiança na presidenta Dilma e no PT (96%). A oposição, no entanto, não se saiu muito melhor. O Datafolha havia mostrado que a maioria dos manifestantes de março se colocava entre o centro e a direita e tinha votado em Aécio Neves no segundo turno. Significaria isso maior confiança no PSDB? No domingo, apenas 23% confiavam muito em Aécio e 11% no PSDB como partido. Constatamos ainda um nível baixíssimo de confiança no PMDB (apenas 1% confiava muito) e na sua principal liderança, Eduardo Cunha (apenas 3%). Na lista dos políticos, Jair Bolsonaro despontou como nova liderança (19% confiavam muito), à frente de Marina Silva, com 15%. Os dados mostram que a desconfiança não se reduz ao PT, mas chega à oposição.

O nível de crédito ainda é baixo, mas maior nas organizações não governamentais e nos movimentos sociais (20% e 30%, respectivamente, confiam muito) sugerindo uma relação inversamente proporcional entre o grau de institucionalização e o grau de confiança. Os grupos liberais, convocantes da manifestação, tem o maior índice de confiança: 71% confiam muito no Vem Pra Rua e 53% no Movimento Brasil Livre. Com 25%, surpreende que o Movimento Passe Livre, de esquerda e associado aos protestos de junho de 2013, esteja à frente do convocante conservador Revoltados On Line (com 19%).

A desconfiança na imprensa também é grande entre os manifestantes (apenas 21% confiam muito). Surpreende a baixa confiança no influente Jornal Nacional (apenas 16% confiam muito), mas já era esperada uma confiança mais elevada na revista Veja (52% confiam muito) e nos comentaristas conservadores e polemistas como Raquel Sherazade (49%) e Reinaldo Azevedo (40%). Paulo Henrique Amorin, considerado mais à esquerda, mas com um estilo confrontativo, aparece em destaque também (28% confiam muito), sugerindo que o estilo pode ser mais importante que a ideologia.

Por fim, testamos a concordância dos manifestantes com boatos muito difundidos na Internet, alguns flagrantemente inverídicos. 71% dos manifestantes concordam que o filho de Lula é sócio da Friboi e 53% que o PCC é um braço armado do PT. Uma combinação entre a desconfiança na imprensa, a ascendência de fontes de informação sem verificação e a proeminência de comentaristas políticos que provocam controvérsia pode estar baixando a qualidade da informação que orienta o comportamento político.

Veja a íntegra da pesquisa feita na manifestação.

Pablo Ortellado é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP; Esther Solano é professora de Relações Internacionais da UNIFESP; Lucia Nader é cientista política pela Sciences Po-Paris e fellow da Open Society Foundations.

Leave a Comment

Filed under Artigos em Jornais

oGR :: Africa’s social movements present opportunities, not threats, for rights groups

Leia esse artigo em português :: Lea ese artículo en español

Published by Open Global Rights on May, 5th, 2015

LUCIA NADER and AKWASI AIDOO

After decolonization, many African political groups lost touch with the grassroots. Let’s not let the same happen to the continent’s professional human rights groups. Português, Español

The global upsurge in the streets and through new social movements presents a conundrum for human rights groups; on the one hand, it creates a tsunami of unpredictable change, while on the other hand, it promises new opportunities for renewal. Human rights groups around the world must innovate or risk being rendered irrelevant by the new surge of street activism.

The African region is no exception, despite its diversity. Consider Senegal, where in 2011 the Y’en a Marre (“Enough-is-Enough”) youth movement and Mouvement 23 (“June 23 Movement”) seized the limelight during a turbulent political moment, and played a critical role in preventing former President Abdoulaye Wade’s attempt to amend the constitutional provision on term limits and hang on to power. In the process, long-established and extremely important Senegalese human rights organizations, such as Rencontre Africaine pour la Défense des Droits de l’Homme (RADDHO), appeared virtually irrelevant. They were not always present on the streets, and were not consistently able to use the moment to give their causes new visibility.

How can professional human rights organizations become more nimble, while also maximizing impact and sustaining their work over the long term? Doing all these things is crucial to remaining relevant in an age of increased grass roots activism.

In Africa today, some say that social movements are more representative of the public’s desires than mainstream human rights groups. Are they? They do perhaps have a better sense than conventional civil society groups about what “people really care about”, and how intensely their grievances are felt. These movements also claim to be better at including more diverse demographics, including youth, into their campaigns and protests. And, perhaps, due to more flexible and agile structures, they can act more quickly.

Professional African rights organizations by contrast tend to focus on reforming the state, or on interacting with international organizations. No doubt this continues to be tremendously important. However, as ordinary people have less trust in state institutions and international organizations, they may also trust human rights organizations less. African organizations are also dependent on Northern donors, forcing their activities and thinking into short-term, project-based frameworks. As a result, they can’t see what’s going on in the periphery of their areas of expertise, even if those new developments are game changers. Moreover, ordinary people are often moved to action by events that are not on the human rights organizations’ radar. Thus, the mass movement that also mobilized so rapidly and powerfully against long-time Burkina Faso president Blaise Compaoré took most local human rights organizations completely by surprise.

Mass mobilization, of course, is to be welcomed, as human rights can only be durably protected when ordinary people stand up for their rights.

These traditional elements can form a bridge between moments of social protest, while also providing access to stable financing. Fast-moving, street-smart “fluidity” is thus crucial. At the same time, Senegal and other African countries also need the “solidity” of the traditional rights groups, including their permanent organizational structures, and their expert, paid staff. These traditional elements can form a bridge between moments of social protest, while also providing access to stable financing. This, in turn, will help sustain human rights campaigns over time.

To maintain their relevance, however, African rights groups will have to become more innovative and nimble. They must keep their ears to the ground, forging new and more creative partnerships with participants of new social movements.

Both the “fluid” new actors and the “solid” conventional organizations must take a good look in the mirror, and figure out how best to create these alliances. The conventional organizations can’t lose by extending an olive branch to new social groups with significant followings; this will help them join fast-moving civil society demands without necessarily losing their own sense of mission and profile. They will also gain an opportunity to build constituencies in new social sectors. Protagonists of new social groups, for their part, can take the lead during moments of public protest, drawing additional legitimacy from their partnership with the established human rights groups.

As previous openGlobalRights authors have written, human rights groups must also figure out how to diversify their funding sources, and raise more domestic money. Today, most African rights groups depend on foreign donors, but this does not have to remain forever true. As Austrian theologian Friedrich von Hügel said, “The Golden Rule is to help those you love to escape from you.” If foreign donors really do want to help African rights organizations, they must assist in creating a domestic philanthropic infrastructure.

During and after Africa’s liberation struggles in the 1960s, many groups became political parties, and lost touch with their organic roots. Let’s not allow the same thing to happen to African human rights groups.

Leave a Comment

Filed under oGR - Open Democracy

Navegador :: Novos poderes, democracia

Assista à entrevista em http://globosatplay.globo.com/globonews/v/4129363/

Leave a Comment

Filed under oGR - Open Democracy