Vídeo 1 – Como as organizações sólidas estão se adaptando ao mundo líquido?

Começo hoje a publicar o que, espero, seja uma série de vídeos sobre a minha pesquisa “Organizações Sólidas num Mundo Líquido”, com o apoio da Open Society Foundations. Em 1 ano entrevistei 102 pessoas, de ONGs, fundações e universidades para tentar descobrir se e como as organizações, cada vez mais estratégicas e profissionais, estão se adaptando ao “mundo líquido”. Mais no video (caseiríssimo!) abaixo.

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Vídeo :: 5 caretas para não inovar

São 5 caretas que vejo (e faço) quando “inovação” aparece nas entrevistas da minha pesquisa com defensores de direitos humanos:
(i) inovação é só mais uma palavra da moda no setor privado e entre os financiadores que foi transferida (em inglês) para o setor social,
(ii) nosso foco são pessoas reais, vítimas de violações de direitos humanos, e não cobaias ou produtos para testarmos novas estratégias,
(iii) tecnologia? Não acredito que a tecnologia resolverá tudo, muito pelo contrário, ela amplia desigualdades e violações,
(iv) meus valores não mudaram (e nunca mudarão) e os problemas contra os quais eu luto também não são novos, muito pelo contrário, então não vejo então por que fazer as coisas diferentes; e
(v) ninguém garante que terei resultados melhores se inovar.

Concordo em parte com todas elas – mas também discordo, como exposto no vídeo no link abaixo. Para o debate, sempre.

http://www.youtube.com/attribution_link?a=bUfGW2kRMiU&u=%2Fwatch%3Fv%3Dwp3fqbPCJJ4&feature=em-upload_owner#action=share

Fonte: o vídeo originalmente gravado para para o encontro “Ampliando o conceito e aplicação da inovação social” (https://goo.gl/), dia 29/3/2016, na Semana do Investimento Social do ‪GIFE/Brasil.

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De volta ao futuro no Brasil

Publicado em 30 de dezembro de 2015 no Democracia Abierta em português, inglês e espanhol

LUCIA NADER, MANOELA MIKLOS, and ANA CAROLINA EVANGELISTA

30 December 2015

Ainda que imersa numa crise que afeta os três poderes, a sociedade civil brasileira acredita na democracia. As recentes mobilizações de mulheres e jovens indicam o caminho a seguir. English. Español.
“Brasil, País do Futuro” é o título do clássico livro de 1941 de Stefan Zweig. Converteu-se em ditado popular: o Brasil é o país do futuro. Todo brasileiro escutou essa frase e era comum, até os anos 2000, a brincadeira de que esse futuro jamais chegaria.

Na última década, no entanto, esse futuro perecia ter chegado. O Brasil saiu do Mapa da Fome (FAO-ONU). Dentre os países mais populosos do mundo, teve a maior queda de subalimentados entre 2002 e 2014: 82,1%.

Nesse mesmo período, o desemprego chegou a louváveis 4,9%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e o salário mínimo teve ganhos reais de 75%.

Os números dão concretude a algo que não era apenas um sentimento: houve importantes avanços sociais e substantiva distribuição de renda. Em 2003, o recém-eleito presidente Lula (PT) prometeu um “Brasil, país de todos”. Um líder hábil e carismático. Um mestre em disseminar otimismo, com dados para respaldá-lo.

O otimismo erodiu e vem dando lugar a uma percepção de inflexão nessa rota positiva. Estaríamos voltando para o passado? O futuro seria mesmo apenas uma promessa?

A deterioração do cenário político, econômico e social são assunto de qualquer roda de conversa. Manchetes dos jornais e mobilizam milhares a saírem às ruas, para defender ou questionar o governo com igual fúria. Os ânimos estão aflorados e a polarização faz com que ninguém saia impune de ser rotulado como esquerda ou direita, sempre pejorativamente, dependendo dos olhos de quem vê. Uma tentativa simplista de construir um culpado único, e agregar aliados contra essa ameaça.

Três poderes

É fundamental olharmos para os três poderes para compreender o momento atual da política brasileira.

Em Brasília, um Poder Executivo esgarçado é chefiado pela presidente Dilma Rousseff (PT), sucessora de Lula, que já está em seu segundo mandato. Dilma foi reeleita ao final de 2014 com 51,64%% dos votos válidos, contra os 48,36%do segundo colocado, Aécio Neves (PSDB). Ao mesmo tempo, o PT – partido da presidente – tem sido alvo de sucessivos escândalos de corrupção e encontra dificuldade de seguir com seu projeto que dá sinais de esgotamento e demanda urgente revisão. A taxa de desaprovação do governo Dilma é de 65%e ela está à mercê de alianças questionáveis com a sua base aliada, em prol de uma suposta governabilidade.

No Legislativo, foi conduzido à presidência da Câmara dos Deputados o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Cunha emergiu desse ambiente de incerteza como um grande líder conservador numa guerra declarada contra o governo.

Este mesmo Legislativo está imerso em incontáveis casos de corrupção envolvendo os presidentes e parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado. Uma maioria de deputados conservadores trava uma batalha diária contra direitos adquiridos desde a Constituição Federal de 1988, alicerce da redemocratização: a maioridade penal pode diminuir e estão em risco, por exemplo, o estatuto do desarmamento, o direito ao aborto legal e seguro para casos de estupro e leis que garantem direitos indígenas.

Um dos efeitos deste cenário é uma presidente acuada por ameaças de impeachment capitaneadas por Cunha e pelos partidos de oposição sob alegação de violação de leis de responsabilidade fiscal. O PMDB, partido de Cunha, é, diga-se de passagem, o partido do vice-presidente da República e, teoricamente, aliado ao governo.

Já o poder Judiciário, tem sido acessado com frequência para arbitrar nesse momento de incertezas. Age com relativa celeridade, mas aquece o debate sobre a excessiva judicialização da política. É visto como bandido ou mocinho dependendo de como delibera e do grupo que o avalia.

Tudo isso acontece em meio a uma operação da Polícia Federal, batizada deLava-Jato, que busca esclarecer e punir os responsáveis por um esquema de corrupção envolvendo os principais atores políticos e interesses econômicos do país. É a maior investigação sobre corrupção conduzida até hoje, envolvendo políticos de vários partidos e as maiores empreiteiras do país.

Participação, inovação, futuro

Em meio ao aparente caos, há, contudo, a chance de retomar a crença na democracia, ressignificar as práticas de participação e aprofundá-las. A inovação cívica parece ganhar fôlego à medida que as relações no âmbito do Estado corroem-se. A sociedade civil brasileira segue vibrante e crê na democracia. Por um lado, demanda uma urgente reforma política e zela pelas instituições republicanas, por outro, busca fortalecer, em suas muitas lutas, a democracia como valor de vida em sociedade.

Lembremos que milhões de brasileiros foram às ruas em junho de 2013. Dentre as várias bandeiras, a do “não me representa” emergiu como consenso. Um recado claro ao Estado de que há um hiato grande demais entre representantes e representados.

É inadiável uma reforma política ampla e profunda. Mas é preciso mais e a sociedade brasileira sabe disso. É preciso olhar além do Estado e das instituições e revigorar a crença na democracia como valor da convivência em sociedade.

É dessa percepção que nascem, no Brasil de hoje, articulações independentes, autônomas, que tomam as ruas e as redes e reanimam paixões políticas em meio à imobilidade que o caos poderia impor. Duas mobilizações recentes são dignas de nota: a resistência das mulheres brasileiras e a insurgência dos estudantes secundaristas do sistema público do Estado de São Paulo.

As mulheres brasileiras marcharam nas ruas pedindo nenhum direito a menos e muitos a mais. Tomaram os meios de comunicação e ocuparam por uma semana os espaços de fala garantidos aos homens com vozes femininas e feministas para falar do machismo e da desigualdade de gênero. Dominaram as redes numa catarse digital, uma marcha de hashtags contra a cultura do assédio e da violência contra a mulher. O ano de 2015 foi o da primavera feminista no Brasil. As lutas feministas por um “novo normal” no que tange às relações entre os indivíduos são exemplo dessa sociedade civil sintonizada na necessidade de cuidados redobrados com uma democracia que seja percebida de maneira total.

Os estudantes secundaristas do sistema público de ensino do Estado de São Paulo se articularam igualmente de maneira inédita contra o projeto de reorganização das políticas para educação do governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) e o processo autoritário de sua formulação e execução, atitude recorrente desse governo estadual. Milhares de alunos ocuparam por um mês aproximadamente 200 escolas públicas espalhadas e conseguiram asuspensão do projeto de reorganização. Estes jovens envolveram pais, professores, comunidades, intelectuais e artistas numa mobilização contra o fechamento de escolas e pela democracia, tanto no âmbito da tomada de decisão estatal quanto nas relações estabelecidas entre cidadãos nas salas de aula e nas ruas.

Na política, não existem vitórias definitivas, mas há conquistas que pedem celebração. O que fizeram mulheres e estudantes em 2015 deve ser observado com atenção. A saída para a crise está em articulações inovadoras que reúnam a sociedade civil em redes progressistas. A potência dessas redes está na sua diversidade e na forma como potencializa o ativismo atomizado e individual, os movimentos e as organizações.

Defender o Estado democrático de direito é necessário. As instituições devem ser preservadas, a reforma política é imprescindível, mas é igualmente urgente se reunir e pensar a democracia enquanto valor que pauta a convivência em sociedade.

Queremos um país verdadeiramente democrático e democracia é mais que um regime. Queremos a democracia exercitada diariamente dentro e fora das instituições. Mulheres e jovens estão indicando um caminho. Políticos devem escutá-los.

Aí sim, o futuro será presente.

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Bingo (inovador) de direitos humanos 2016

Inovação é o conceito que mais aparece na minha pesquisa. Na maioria das vezes, junto com caretas daqueles que estão na ponta ou são financiadores em direitos humanos. Incluindo a minha em alguns casos.

“Quem sabe essa resistência acontece por que parece contraditório falar de inovação em um campo onde a persistência e resiliência são fatores fundamentais e consomem grande parte de nossa energia? Como inovar na entrada semanal em presídios para identificar abusos e tortura, por exemplo. Ou será por que imediatamente relacionamos inovação com tecnologia e há desconfiança e cada mais clareza dos limites de tudo ser tec?”, disse agora uma participante no #ihrfg2016sf (conferência anual do International Human Rights Funders Group, em San Francisco, nos Estados Unidos).

innovation

Concordo com as pistas levantadas por ela e adicionaria que há um cansaço de palavras “novas” que viram mantras antes de serem decantadas e compreendidas – foi assim com redes, empoderamento, accountability. Tenho ainda a impressão de que o fato de serem palavras em inglês já (me) dá uma certa preguiça – não por acaso, foram pensadas ou empacotadas no norte, sendo que muito já foi testado anteriormente fora da Europa e EUA. Entraram recentemente na cartela do bingo o design-thinking, lean start up, disruption and etc.

Ou, e talvez mais importante de tudo, por que resisto em sempre inovar quando lidamos com pessoas, vítimas, seres sofridos e abusados. Cuidado com qualquer tipo de “laboratório”. O velho parece ser mais respeitoso e seguro quando não lidamos com produtos.

Mas o pior é que continuo achando que precisamos inovar, e isso não é novo, é uma necessidade constante. Não pela inovação em si. Mas pela crença de que, mesmo já tendo conquistado muito, sempre podemos fazer melhor e isso exige uma pitada de “diferente” (nem que seja para não perder a motivação).

Crença de que o mundo está mudando – sempre mudou, mas hoje muda mais rápido, com complexidades mais aparentes e avanços exponenciais relacionados em grande parte pela tecnologia e velocidade da informação. Ou por uma desconfiança de que se todos falam em inovação no setor privado e tantas áreas sociais que não os direitos humanos, talvez estejam certos e precisemos inovar também.

No fim, não faço questão de usar o termo inovação. Me sinto amplamente contemplada com a demanda por mais criatividade, flexibilidade e diversidade de estratégia. Por mais comunicação com o mundo exterior. Por menos burocracia e formulário. Com tanto que o objetivo final seja ter impacto na vida real de pessoas, promover e proteger direitos e a democracia. Se isso exige inovação, que venha. E isso não impede que continuemos resistindo e apostando em “velhas” táticas. Mas que nem seja por puro medo ou preconceito com a mudança. Ou por que nos acostumamos e estamos fadados a um modelo de gestão e sustentabilidade (recursos financeiros) que nos impede de ver o mundo lá fora.

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Viver é preciso. Planejar também?

Esse é o momento em que as ONGs estão fazendo um balanço de final de ano (que ano!) e ajeitando seu planejamento para 2016. Todo mundo cansado, sensação de que muito foi alcançado, mas frustração (ou ânimo) de que há muito a ser feito.

E lá vamos nós colocar no papel (muitas vezes em inglês, para que financiadores entendam) o que pretendemos fazer ano que vem. Tudo isso em plena coerência com aquilo que previmos que iríamos fazer nos próximos 3 ou 5 anos. Afinal, todos fingimos ter uma teoria da mudança única e mágica.

Opa, peraí. E como planejar um ano tão incerto?

superheroi

Pelas conversas e entrevistas que tenho feito, há um sentimento disseminado de que precisamos achar formas mais criativas e eficazes de nos planejar. O tal do quadro com objetivos, estratégias, atividades, resultados, responsáveis, cronograma e recursos – nessa ou outra ordem – não dá mais conta.

Parece ser mais importante do que nunca planejar bem. Caso contrário, fica-se a mercê da conjuntura, reativo e nos transformamos em “agências de notícias”.

Mas parece necessário planejar menos e num nível mais estratégico, acima do que estamos acostumados. O tempo “não planejado” não é tempo perdido, mas tempo investido para aproveitar janelas de oportunidades e situações políticas que podem beneficiar a causa.

Isso requer sintonia, criatividade e abertura à inovação (e o inerente apetite ao risco). É algo como saber ver e tentar surfar uma onda gigante, se aparecer (ao invés de estar de costas para ela consertando a prancha). Sempre é arriscado, a chance de tomar um caldo é grande – mas pode também ser a onda perfeita, antes da próxima mais perfeita ainda.

Uma das organizações que entrevistei – Anistia Internacional (escritório da Espanha) – está planejando cerca de 50% de seu tempo. Fizeram isso durante os protestos de 2011 e continuaram depois dos protestos. As reuniões de acompanhamento do planejamento se transformaram em “reuniões de conjuntura”. Nesse caso, eles não incorporam temas “novos” à agenda, mas usam a agenda a favor dos temas nos quais têm expertise. Há outras organizações que ampliam seu leque temático, conforme a conjuntura.

Não acho que tenha receita perfeita. Ao menos não achei ainda. Há tentativas de se aproximar das formas de planejamento das starts-ups, agressivas e dispostas a tentar-errar-acertar a todo momento (e idealmente com recursos para isso). Há também “novos” ou releituras de métodos dos setor privado, como OKR – Objectives and Key Results – ou mesmo teorias mais integrais, como variações acerca da Teoria U.

Um ponto pacífico e urgente é a necessidade dos financiadores entenderem e apoiarem esse esforço. Sem financiamento baseado em confiança, incentivo à criatividade, flexibilidade e previsibilidade não há onda perfeita que resolva. Nem organização e equipe (especialmente as famosas áreas-meio!) que aguente. Dito isso, não acho que o modelo de financiamento seja o culpado por todo mal – apesar de ser peça essencial e crucial dessa engrenagem toda. É importante reconhecer que, mesmo se o financiamento fosse diferente, teríamos que ser mais criativos e ousados em tentar pensar e trabalhar de outra forma (ao menos para as organizações que estão sentindo essa necessidade).

Tudo isso parece burocrático e banal frente à nobreza de construir um mundo melhor, que deve ser ser o objetivo principal e orientar qualquer esforço organizacional. O maior risco dos processos internos é fazer com que olhemos muito mais para dentro da organização do que para fora, para o motivo real de unir pessoas em torno de um ideal.

Mas só quem está no mar sabe o quanto de tempo, energia e dedicação isso requer de cada um e das equipes. Adoraria ouvir e conversar sobre novidades e ideias sobre tudo isso. Avante!
#orgssólidasmundolíquido #solidorgsliquidworld

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Clear the way – Abram alas #AgoraÉqueSãoElas

One of the impacts of this fellowship project was to made me see my work through a feminine lens, as a woman. Last november, as part of a women’s rights campaign in Brazil, I published the article below in Folha de São (Brazil’s main newspaper).
***
Um dos impactos da minha pesquisa foi perceber o trabalho que desenvolvo pela lente feminina, como mulher. Em novembro, parte de uma campanha pelos direitos das mulheres no Brasil, publiquei o artigo abaixo no jornal Folha de São Paulo.

IN ENGLISH

Clear the way
#AgoraÉqueSãoElas (#NowItsOurTimeLadies)

When you grow up, it’ll pass. But it didn’t pass. My desire to change the world and build a better country didn’t pass. Neither did my strength to fight for this, with my woman’s body and voice.

It was as a woman that I went for the first time, 20 years ago, to a prison full of women who were living their femininity behind bars. Women who have to undress for searches, have their bodies invaded and give birth in shackles. Some use sanitary towels made from breadcrumb.

It was as a woman that I addressed presidents, ministers and judges, reacting to sexist comments by looking them straight in the eye with an angry smile that meant to avoid submission. Female smiles can be effective, but they are always hard to digest.

It was as a woman that I was so often called a “girl” by the suits in the UN, who wanted to know which man I was assisting. Situations when, to be heard, I had conceal my curves, deepen my voice and adopt a more masculine tone. To furrow my brow to denounce the story of Kim, an elderly North Korean woman who was imprisoned for 30 years in a concentration camp where she was forced to kill one of her own children and eat its flesh.

It was as a woman that I travelled the world following the stories of other women for whom “it didn’t pass”. Like Consuelo and Antonia, the mother and daughter who crossed the Mexican border to the United States on foot. Or the women who poured onto the streets to call for democracy after the fall of the bloody dictatorship in Tunisia, where I am writing these lines.

And it was as a woman that, last week, I watched with excitement as women took to the streets across Brazil. The streets of a country that has also fought hard for its democracy and that routinely needs to strengthen it.

The shouts that we heard were provoked by Bill 5069/2013, which makes it difficult for rape victims to have an abortion: a piercing shout for more freedom to decide about our bodies and our lives.

It’s just the beginning. Clear the way, because it didn’t pass. We’re here to stay. #AgoraÉqueSãoElas (#NowItsOurTimeLadies)

Published at Folha de São Paulo newspaper (November, 5th, 2015)
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/matiasspektor/2015/11/1702398-abram-alas.shtml

IN PORTUGUESE

Abram alas
#AgoraÉqueSãoElas

Quando você crescer, passa. Mas não passou. Não passou a vontade de mudar o mundo e construir um país melhor. Nem a
força para lutar por isso, com meu corpo e voz de mulher.

Foi como mulher que entrei pela primeira vez, há 20 anos, num presídio repleto de mulheres que vivem sua feminilidade atrás das grades. Mulheres que são revistadas nuas, invadidas por dentro e algemadas durante o parto. Algumas utilizam absorventes feitos com miolo de pão.

Foi como mulher que me dirigi a presidentes, ministros e juízes, reagindo a comentários sexistas com o olho no olho, e um sorriso de raiva que buscava evitar a submissão esperada. Sorriso feminino às vezes eficaz, mas sempre difícil de digerir.

Foi como mulher que fui tantas vezes chamada de “menina” por engravatados na ONU, que queriam saber qual homem eu assessorava. Situações nas quais, para ser ouvida, precisei cobrir as curvas, engrossar a voz e masculinizar o tom. Franzir a testa para denunciar a história de Kim, idosa norte-coreana presa durante 30 anos em um campo de concentração, onde foi forçada a matar um dos filhos e comer-lhe a carne.

Foi como mulher que rodei o mundo acompanhando as histórias daqueles para quem ‘não passou’. Como a de Consuelo e Antonia, mãe e filha, que cruzaram a pé a fronteira do México com os EUA. Ou a das mulheres que foram às ruas para pedir democracia após a sanguinária ditadura da Tunísia, de onde escrevo estas linhas.

E foi como mulher que, semana passada, assisti emocionada à tomada das ruas por mulheres em todo o Brasil. Ruas de um país que também luta arduamente por sua democracia e que precisa fortalecê-la cotidianamente. O grito que ouvimos foi provocado pelo projeto de lei 5.069, que dificulta o aborto em casos de estupro: um grito estridente por mais liberdade para decidir sobre nossos corpos e sobre nossas vidas.

É só o começo. Abram alas, pois não passou. Estamos aqui para ficar.

Original publicado na Folha de São Paulo (5 de novembro, 2015)
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/matiasspektor/2015/11/1702398-abram-alas.shtml

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Escuchar las calles: el caso español

Cuatro años después de que protestas masivas sacudieran España, las políticas electorales del país están cambiando. ¿Se han affectado las organizaciones de derechos humanos? ¿Cambiarán? English, Português

Original en Open Global Rights, en https://opendemocracy.net/openglobalrights/lucia-nader/escuchar-las-calles-el-caso-espa%C3%B1ol

LUCIA NADER 28 September 2015

El 15 de mayo de 2011, un cartel en las calles de Barcelona resumió bien la situación: “Democracia: te quiero, pero te siento un poco ausente”. Cientos de miles de españoles indignados salieron a las calles, gritando “No nos representan” y “¡Sí se puede!”. Este día, conocido localmente como el 15-M, representó un cambio significativo en la escena política de España. Los manifestantes no solo protestaban las medidas de austeridad del gobierno, sino que se rebelaban de una manera más general contra la cultura política española.

Cuatro años más tarde, las elecciones municipales sacudieron el sistema de partidos políticos tradicionales del país. Las personas llenaron las calles de Barcelona una vez más, ahora para celebrar la victoria de Ada Colau como alcaldesa. Colau, una activista contra los desahucios, se dio a conocer como una de los fundadores de la Plataforma de los Afectados por la Hipoteca (PAH), un movimiento por los derechos de vivienda que ganó visibilidad en las protestas de 2011. En Madrid, la gente celebró la victoria de Manuela Carmena, una juez prominente y defensora de los derechos humanos. Los votantes españoles estaban enviando un mensaje claro: querían a “personas comunes” en el poder, y eligieron a dos mujeres fuertes, de alto perfil, vinculadas con los movimientos sociales que habían encabezado las protestas del 15-M.

¿Cuáles fueron los aspectos positivos y negativos de ser entidades “sólidas” y con una organización convencional en un mundo “líquido” compuesto por individuos y movimientos sociales que evolucionan rápidamente? Los partidos políticos tradicionales se han apresurado para intentar averiguar qué significan las protestas callejeras masivas para ellos, y lo mismo están haciendo las organizaciones de la sociedad civil, incluidas agrupaciones de derechos humanos destacadas, como Observatori Desc, Salud por Derecho y Ecologistas en Acción. ¿Cómo se vieron afectadas estas organizaciones? ¿Cuáles fueron los aspectos positivos y negativos de ser entidades “sólidas” y con una organización convencional en un mundo “líquido” compuesto por individuos y movimientos sociales que evolucionan rápidamente?

En mayo y junio de este año, entrevisté a docenas de personas en Madrid y Barcelona, en busca de respuestas a estas preguntas. Sus respuestas fueron muy similares a las de Brasil, donde las organizaciones se han visto afectadas por las protestas callejeras desde junio de 2013.

Entre el optimismo y la sospecha

Muchos líderes de organizaciones no gubernamentales (ONG) describieron el 15-M como una increíble “explosión de energía”. “¿Dónde estaban todas estas personas la semana pasada?”, preguntó Concepción García de Ecologistas en Acción, una confederación de 300 organizaciones que trabajan con derechos ambientales.

Otros líderes vieron las protestas del 15-M como una época de gran optimismo y un resurgimiento de la creencia de que los ciudadanos comunes pueden ser catalizadores del cambio social y político. Vanessa López de Salud por Derecho, una agrupación con sede en Madrid que defiende el derecho a la salud, recordó que durante mucho tiempo ella y sus colegas se habían sentido “solos”, desalentados porque un gobierno supuestamente izquierdista había adoptado las políticas de la derecha. “De repente”, recordó, “todas esas personas salieron a las calles… estábamos tan emocionados”.

Mismo con todo el entusiasmo, a algunas agrupaciones de la sociedad civil les resulto difícil relacionarse con los manifestantes, ya que las personas en las calles querían demasiadas cosas distintas, demasiado rápido. Además, hablaban en términos sumamente radicales y rechazaban los canales tradicionales para el diálogo con las instituciones del Estado. “Tratamos de acercarnos” a los manifestantes, recordó uno de los dirigentes de ONG. “Pero sentimos que había resistencia. Nos hacían [preguntas difíciles] sobre nuestros donantes, nuestras posturas políticas, nuestros valores”.

Otras agrupaciones de la sociedad civil se mostraron más optimistas. De acuerdo con Vanessa Valiño de Observatori Desc, una plataforma nacional de organizaciones que trabajan con los derechos económicos, sociales y culturales, algunas ONG pudieron establecer alianzas con los manifestantes y, entre otras cosas, “expresar las exigencias de las calles en términos legales”.

Madrid, Spain. 15th May 2011 -- The call for Real Democracy NOW! march through the streets of Madrid calling for a political and social change in Spain.  -- The call for Real Democracy NOW! march through the streets of Madrid calling for a political and social change in Spain. Madrid, Spain. 15/05/2011

Madrid, Spain. 15th May 2011 — The call for Real Democracy NOW! march through the streets of Madrid calling for a political and social change in Spain. Madrid, Spain. 15/05/2011 — Demotix/Jesus Cabrera Duque (All rights reserved)

El efecto de la calle

En mis entrevistas, encontré que las protestas masivas de 2011 tuvieron cuatro efectos distintos sobre las agrupaciones de derechos humanos de la sociedad civil:

Planificación y financiación flexible

Normalmente, las principales ONG “sólidas” planifican sus actividades en ciclos de 12 o 24 meses. Tienen proyectos a mediano y largo plazo, fechas claras, marcadores de impacto, “marcos estratégicos” y informes para los donantes que completar. Las protestas callejeras de 2011, sin embargo, llevaron el día a día de la política al trabajo cotidiano de las ONG, lo que contribuyó a que estas sintieran la necesidad de estar más conectadas a “las vidas de los ciudadanos comunes”, y más capaces de aprovechar las ventanas de oportunidad.

Virginia Álvarez de la oficina de Amnistía Internacional en Madrid, por ejemplo, calculó que más del 50 % de sus actividades actuales ya no se planifica con anticipación. En cambio, ahora se celebran reuniones semanales para detectar tendencias. “Lo que cambia es el contexto”, subrayó Álvarez. “Si antes trabajábamos con la violencia del Estado solamente dentro de las prisiones, ahora también incorporamos la violencia policiaca en las protestas”. Se quedó aún más evidente que la flexibilidad en la planificación y el financiamiento es clave, ya que deja espacio para lo inesperado.

Nuevas agendas y redes

Como resultado directo de las protestas de 2011, muchas ONG españolas se encuentran trabajando en todo tipo de temas nuevos, como “el derecho a la ciudad”, que hace hincapié en la sostenibilidad, la democracia, la equidad y la justicia social. También están trabajando con grupos y personas con los que antes no tenían conexión alguna. “Desde el 15-M”, afirmó Vanessa López de Salud por Derecho, “hemos empezado a trabajar con actores no convencionales, como los economistas españoles y la asociación española de médicos”.

Estructura y procesos internos

Algunas organizaciones informaron que era (y es) difícil equilibrar la “velocidad que exigen las calles” con los procesos institucionales a los que están acostumbradas. También hubo fricciones entre el “activismo individual” de los integrantes de los equipos y su “activismo institucional” como miembros de las ONG. Algunos de los entrevistados dijeron que cuando quieren ser activistas “de verdad”, lo hacen fuera de su organización.

Con las protestas de 2011, algunas agrupaciones que eran las sucursales españolas de organizaciones internacionales más grandes, como Amnistía Internacional y Médicos del Mundo, comenzaron a tener una mayor autonomía de las oficinas centrales. Dado que las condiciones locales eran únicas y cambiaban rápidamente, necesitaban la independencia para experimentar.

Comunicación y movilización

Finalmente, casi todos mis entrevistados dijeron que las organizaciones de derechos humanos necesitan comunicarse más y mejor, además de ampliar sus estrategias para la movilización social. “¿Por qué no logramos movilizar tanta gente como los otros movimientos?”, fue la frase que más escuché de los entrevistados.

En las protestas de 2011, las ONG tuvieron que “criticar al poder” en público y expresarse más abiertamente. Incluso las agrupaciones más prudentes tenían que “tomar una postura más clara respecto a asuntos que suelen evitarse, como sus opiniones sobre el sistema capitalista, políticos específicos y otros asuntos con poderosas connotaciones políticas”, de acuerdo con Valiño, del Observatori Desc. Como explicó Maira Costa de la Plataforma de los Afectados por la Hipoteca (PAH): “Los nuevos movimientos presionaran a las organizaciones tradicionales para que se expresen con más firmeza, sean más radicales y más rápidas en la comunicación”.

Después del 15-M, a muchas personas que trabajan en las ONG ahora les parece más sencillo explicar qué hacen las organizaciones, porque la sociedad está más politizada y más abierta a escuchar y participar. “Pero tenemos que tener un menú de opciones más diversas y personalizadas, para que puedan elegir qué tipo de relación quieren tener con nosotros”, dijo Tomás Hernández de Médicos del Mundo.

Una cosa está clara: las protestas del 15-M en España sacudieron al sector de las organizaciones de derechos humanos del país. “La caja de herramientas de las organizaciones se amplió después del 15-M”, resumió Jordi Vaquer, de la Iniciativa para una Sociedad Abierta en Europa (la oficina de Open Society Foundations con sede en Barcelona).

El equilibrio entre la innovación y la persistencia es siempre difícil de alcanzar. Pero, como advierte Joan Subirats de la Universidad de Barcelona, “estamos viviendo un cambio de época – no una crisis temporal – y la única manera de avanzar es adaptarse y cambiar”. Las protestas callejeras exemplifican muchos de los síntomas de esta nueva era. Pero ¿somos suficientemente humildes para escucharlas?

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Listening to the streets: the Spanish case

Four years after Spain was shaken by mass protests, the country’s electoral politics are changing. Have human rights organizations been affected and will they also change? Español, Português

Published by Open Global Rights – available at www.opendemocracy.net/openglobalrights/lucia-nader/listening-to-streets-spanish-case

Lucia Nader

Four years later, municipal elections shook up the country’s traditional political party system. People crowded the streets of Barcelona once again, this time to celebrate the victory of Ada Colau as mayor. Colau, an anti-eviction activist, made her name as a founding member of Plataforma de los Afectados por la Hipoteca (PAH), a housing rights movement that gained visibility in the 2011 protests. In Madrid, people celebrated the victory of Manuela Carmena, a prominent judge and human rights advocate. Spanish voters were sending a clear message: they wanted “ordinary people” in power, and they elected two strong, high profile women linked to the social movements that had spearheaded the 15-M protests.

Traditional political parties have scrambled to figure out what mass street protests mean for them, but so have civil society organizations, including prominent rights groups such as Observatori Desc, Salud por Derecho, and Ecologistas en Acción. How were these organizations affected? What were the good and bad aspects of being “solid”, conventionally organized entities in a “liquid” world of quickly evolving individuals and social movements?

In May and June of this year, I interviewed dozens of people in Madrid and Barcelona, seeking answers to these questions. Their answers were quite similar to those in Brazil, where organizations have been affected by street protests since June 2013.

Between optimism and suspicion

Many NGO leaders described 15-M as an amazing “burst of energy”. “Where were all these people last week?” asked Concepcion Garcia of the Ecologistas en Acción, a confederation of 300 organizations working with environmental rights.

Other NGO leaders saw the 15-M protests as a time of great optimism and revival of the belief that ordinary citizens can catalyze social and political change. Vanessa Lopez of Salud por Derecho, a right to health group based in Madrid, recalled that she and her colleagues had long felt “alone”, discouraged that an allegedly leftist government had taken on the policies of the right. “Suddenly,” she recalled, “All those people came onto the streets…we were so excited.”

Despite the excitement, some civil society groups found the protestors difficult to engage with, as the people in the streets wanted too many different things, too quickly. They also spoke in highly radical terms and rejected traditional channels of dialogue with state institutions. “We tried to get closer [to the protestors],” one NGO leader recalled. “But we felt resistance. They asked us [tough questions] about our donors, our political positions, our values.”

Other civil society groups were more optimistic. According to Vanessa Valiño of Observatori Desc, a national platform of organizations working with economic, social and cultural rights, some NGOs were able to establish partnerships with the protestors and complement each other to, for instance, “express the demands of the streets in legal terms.”

Madrid, Spain. 15th May 2011 -- The call for Real Democracy NOW! march through the streets of Madrid calling for a political and social change in Spain.  -- The call for Real Democracy NOW! march through the streets of Madrid calling for a political and social change in Spain. Madrid, Spain. 15/05/2011

Madrid, Spain. 15th May 2011 — The call for Real Democracy NOW! march through the streets of Madrid calling for a political and social change in Spain. — Demotix/Jesus Cabrera Duque (All rights reserved)

The impact of the street

In my interviews, I found that the mass protests of 2011 had four distinct impacts on rights groups within civil society:

Flexible planning and funding

Normally, “solid” mainstream NGOs plan their activities in 12 or 24-month cycles. They have medium and long-term projects, clear timelines, impact markers, “strategic frameworks” and donor reports to fill out. The street protests of 2011, however, brought the political day-to-day into the daily work of NGOs. They felt the need to be more connected to “the lives of ordinary citizens”, and better able to take advantage of windows of opportunity.

Virginia Alvarez of the Amnesty International office in Madrid, for example, estimated that over 50% of what they currently do is no longer planned in advance. Instead, they now hold weekly meetings to detect trends and opportunities. “What changes is the context,” Alvarez stressed. “If we previously worked with state violence only within prisons, now we also incorporate the police violence in the protests.” It became more evident that flexibility in planning and financing is key, leaving room for the unexpected.

New agendas and networks

As a direct result of the 2011 protests, many Spanish NGOs find themselves working on all manner of new themes, including “the right to the city”, which emphasizes sustainability, democracy, equity and social justice. They are now also working with groups and people with whom they previously had no connection. “Since 15-M we have begun working with unconventional actors, such as the Spanish economists and the Spanish physicians association,” said Vanessa Lopez of Salud por Derecho.

Structure and internal processes

Some organizations reported that it was (and continues to be) hard to balance the “speed that the streets demand” with the institutional processes to which they are used to. There was also friction between the “individual activism” of team members, and their “institutional activism” as members of NGOs. Some of my respondents said that when they want to be “real” activists, they do this outside their organization.

With the 2011 protests, groups that were the Spanish branches of larger international organizations, such as Amnesty International and Medicos del Mundo, also found themselves demanding more autonomy from the central office. As local conditions were unique and fast changing, they needed the independence to experiment.

Communication and mobilization

Finally, almost all of my respondents said that rights groups need to communicate more and better, and to expand their strategies for social mobilization. The most frequent statement I heard was: “Why aren’t we able to mobilize people the way other movements do?”

During the 15-M, NGOs had to publicly “criticize power” and become more outspoken. Even the most prudent of groups had to “position themselves more clearly with respect to issues that are often avoided, such as their views on the capitalist system, specific politicians and other issues with powerful political overtones”, according to Valiño, from Observatori Desc. As Maíra Costa of Plataforma de los Afectados por la Hipoteca (PAH) explained, “The new movements pressure traditional organizations to be more vocal, more radical, and faster in their communication.”

After 15-M, many NGO workers now feel that it’s easier to explain what organizations do, because society is more politicized, and more open to listen and engage. “But we have to have a more diverse and customized options menu so that they can choose what kind of relationship they want to have with us,” said Tomas Hernandez of Médicos del Mundo.

There is no doubt that the 15-M protests in Spain have shaken up the country’s civil society sector, and not only the country’s electoral politics. “The organizations’ toolbox widened after 15-M,” summarized Jordi Vaquer, from the Open Society Initiative for Europe (the office of Open Society Foundations based in Barcelona).
The balance between innovation and persistence is difficult. However, as Joan Subirats from the University of Barcelona warns, “We are living through a changing era, not a temporary crisis, and the only way forward is to adapt and change.” Street protests exemplify several symptoms of this new era.

But are we humble enough to listen to them?

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Escutando as ruas: o caso espanhol

Quatro anos após a Espanha ter sido abalado por protestos em massa, o cenário político do país está mudando. Será que organizações de direitos humanos foram impactadas e mudarão também?‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬ EnglishEspañol

Publicado no Open Global Rights – original disponível em https://opendemocracy.net/openglobalrights/lucia-nader/escutando-as-ruas-o-caso-espanhol

LUCIA NADER 28 September 2015

Em 15 de maio de 2011, um cartaz nas ruas de Barcelona resumia bem a situação: “Democracia: te quiero, pero te siento un poco ausente” (“Democracia: te amo, mas você anda um pouco ausente”). Centenas de milhares de espanhóis tomaram as ruas indignados, gritando “No nos representan” (“Não nos representam”), e “Si, se puede!” (“Sim, é possível”). Este dia, conhecido na Espanha como “15-M”, desencadeou uma mudança significativa no cenário político do país. Os manifestantes não estavam apenas protestando contra as medidas de austeridade do governo, mas se rebelando de modo mais amplo contra a cultura política espanhola. ‬

Quatro anos mais tarde, as eleições municipais estremeceram o tradicional sistema de partidos políticos do país. As ruas de Barcelona foram novamente tomadas, desta vez para celebrar a vitória de Ada Colau como prefeita. Colau, ativista anti-despejos, tornou-se conhecida como uma das fundadoras da “Plataforma dos Afetados pelas Hipotecas” (“Plataforma de los Afectados por la Hipoteca” – PAH, em espanhol) um movimento pelo direito à moradia que ganhou visibilidade nos protestos de 2011. Em Madri, comemoraram a vitória de Manuela Carmena, proeminente juíza e defensora dos direitos humanos. Os eleitores espanhóis enviaram uma mensagem clara: queriam “pessoas comuns” no poder e elegeram duas mulheres com perfis fortes, de alto escalão, ligadas aos movimentos sociais que tinham estado à frente dos protestos do 15-M.‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Os partidos políticos tradicionais se esforçam para entender o que os protestos de rua em massa significaram para eles. O mesmo aconteceu com proeminentes organizações da sociedade civil que lutam por direitos humanos, como “Observatório Desc”, “Saúde por Direito” e “Ecologistas em Ação” (Observatori Desc, Salud por Derecho e Ecologistas en Acción, em seus nomes originais). Como essas organizações foram afetadas? Quais foram os aspectos positivos e negativos em serem instituições “sólidas”,  organizadas “convencionalmente” em um mundo “líquido” de indivíduos e movimentos sociais em ebulição?‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Em maio e junho passados, entrevistei dezenas de pessoas em Madri e Barcelona, em busca de respostas a estas perguntas. O que ouvi foi bastante semelhante a entrevistas que fiz no Brasil, onde as organizações vêm sendo afetadas por protestos de rua desde junho de 2013.‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Entre otimismo e desconfiança ‬‬‬‬‬‬

Diversos líderes de ONGs descreveram o 15-M como uma incrível “explosão de energia”. “Onde estavam todas aquelas pessoas na semana anterior?”, me disse Concepción Garcia da Ecologistas en Acción, confederação de 300 organizações que trabalham com direitos ambientais.‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Outros viram os protestos como um período de grande otimismo e renascimento da crença de que os cidadãos comuns podem catalisar mudanças sociais e políticas. Vanessa Lopez da Salud por Derecho, organização que luta pelo direito à saúde com sede em Madri, relembrou que ela e seus colegas vinham há muito tempo se sentindo “sozinhos”, desanimados, porque um governo supostamente de esquerda havia adotado políticas de direita. “De repente”, ela disse, “Todas essas pessoas foram para as ruas…e estávamos tão animados”.  ‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Apesar do entusiasmo, algumas organizações da sociedade civil acharam difícil se relacionar com os manifestantes. Relataram que quem estava nas ruas pedia coisas muito diversas ao mesmo tempo e queriam tudo muito rápido. Falavam em termos muito radicais e rejeitavam canais tradicionais de diálogo com as instituições estatais. “Tentamos nos aproximar” dos manifestantes, um dirigente de uma ONG recordou. “Mas sentimos resistências. Eles nos perguntavam (questões delicadas) sobre nossos doadores, posições políticas, valores…”.‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Mas ouvi também visões mais otimistas. De acordo com Vanessa Valiño da Observatori Desc, uma plataforma nacional de direitos econômicos, sociais e culturais, algumas ONGs foram capazes de estabelecer parcerias com os manifestantes e serem complementares, por exemplo, “ao expressar as demandas das ruas em termos jurídicos”, disse.

Madrid, Spain. 15th May 2011 -- The call for Real Democracy NOW! march through the streets of Madrid calling for a political and social change in Spain.  -- The call for Real Democracy NOW! march through the streets of Madrid calling for a political and social change in Spain. Madrid, Spain. 15/05/2011

Madrid, Spain. 15th May 2011 — The call for Real Democracy NOW! march through the streets of Madrid calling for a political and social change in Spain. Demotix/Jesus Cabrera Duque (All rights reserved)

O impacto das ruas‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Em minhas entrevistas, descobri que os protestos de ruas de 2011 impactaram as organizações de direitos humanos da sociedade civil em quatro frentes:‬

Planejamento e financiamento flexível‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Normalmente, as ONGs “sólidas” planejam suas atividades em ciclos de 12 ou 24 meses. Desenvolvem projetos de médio e longo prazos, com datas claras, indicadores de impacto, diretrizes estratégicas e prestação de contas para doadores. Mas as manifestações de rua de 2011, evidenciaram a importância do cotidiano político para o trabalho diário das organizações. De alguma maneira, sentiram a necessidade e precisaram estar mais conectadas às “vidas dos cidadãos comuns”, e mais capazes de tirarem vantagem das janelas de oportunidades. ‬

Virginia Alvarez, da Anistia Internacional em Madri, estima, por exemplo, que mais de 50% do que eles fazem hoje não é planejado com antecedência – e são feitas reuniões semanais de  conjuntura para detectar tendências e oportunidades. “O que muda é o contexto” Alvarez destacou. “Se anteriormente trabalhávamos com a violência estatal apenas dentro das prisões, agora nós também incorporamos a violência policial nas manifestações”. ‬‬‬‬‬‬

Ficou ainda mais evidente que flexibilidade no planejamento e no financiamento são cruciais, dando margem de manobra para o inesperado.‬‬‬‬

Novas agendas e redes‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Como resultado direto dos protestos de 2011, diversas ONGs espanholas ampliaram os temas nos quais atuam, incluindo “o direito à cidade”, com ênfase na sustentabilidade, democracia, igualdade e justiça social. O leque de parcerias também foi ampliado – até mesmo com grupos com os quais não tinham qualquer conexão anterior. “Desde o 15-M, começamos a trabalhar com atores não convencionais, como economistas e a associação de médicos espanhóis”, me contou Vanessa Lopez da Salud por Derecho.  ‬

Estrutura e processos internos‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Algumas organizações relataram que foi (e é) difícil balancear a “velocidade que as ruas demandam” com os processos institucionais aos quais estão acostumadas. Também disseram haver atritos entre o “militância individual” dos integrantes da equipe e o “ativismo institucional”. Algumas das pessoas que entrevistei disseram que quando querem ser ativistas “de verdade”, fazem isso fora de suas organizações. ‬

Com os protestos de 2011, escritórios nacionais de organizações internacionais de grande porte, como as representações da Anistia Internacional e Médicos del Mundo na Espanha, passaram a ter mais autonomia na relação com os escritórios-sede. Era necessário independência para ousar em meio a uma situação nacional sem precedentes recentes e que mudava a todo tempo. ‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Comunicação e mobilização‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Por fim, quase todas pessoas que entrevistei enfatizaram a necessidade das organizações de direitos humanos precisam se comunicar mais e melhor, e expandir suas estratégias de mobilização social.‬ “Por que não conseguimos mobilizar tanta gente quanto outros movimentos?˜, foi a frase mais recorrente que ouvi dos entrevistados.

Durante o 15-M, as ONGs tiveram que “criticar o poder” publicamente e se tornar mais vocais. Segundo Valiño, do Observatori Desc, até mesmo organizações mais prudentes tiveram que “se posicionar de forma mais clara a respeito de questões que frequentemente são evitadas, como a relação de direitos com o sistema capitalista, opinião sobre políticos específicos e outras questões com profundas implicações políticas”. Conforme Maíra Costa da Plataforma de los Afectados por la Hipoteca (PAH) explicou, “os novos movimentos pressionaram as organizações tradicionais a serem mais vocais, mais radicais e mais rápidas em sua comunicação”. ‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Há ainda a percepção de que, depois dos protestos, está mais fácil explicar o que as organizações fazem, porque a sociedade está mais politizada, e mais aberta a ouvir e se engajar. “Mas nós temos que ter um cardápio de opções mais diversificado e personalizado  para que as pessoas possam escolher que tipo de relação querem ter com a gente”, resumiu Tomas Hernandez da organização Médicos del Mundo.

Não há dúvida: os protestos de 15-M na Espanha impactaram as organizações de direitos humanos, além do cenário político e eleitoral. “A ‘caixa de ferramentas’ das organizações se ampliou depois de 15-M”, diz Jordi Vaquer, da Open Society Initiative para a Europa (“Open Society Initiative for Europe”, na sua denominação original, o escritório da Open Society Foundations em Barcelona). ‬‬‬‬

O equilíbrio entre inovação e continuidade é sempre difícil. Mas, como me alertou Joan Subirats, da Universidade de Barcelona, “Estamos vivendo uma mudança de época – e não uma crise temporária – e o único caminho a seguir é se adaptar e mudar.” Os protestos de rua exemplificam vários sintomas dessa nova era. Mas, somos humildes o suficiente para ouvi-los?

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