Entrevista :: Joan Subirats – “Vivemos uma mudança de época e não há outra saída a não ser mudarmos também”

Joan Subirats é um dos grandes intelectuais espanhóis da atualidade, professor da Universidade Autônoma de Barcelona e coordenador do IGOP – Instituto de Governo e Políticas Públicas. De origem catalã, tem se dedicado a estudar a crise das instituições representativas e suas consequências para a democracia tal como conhecemos hoje.

No livro “Otra Sociedad, otra Política? – de «no nos representan» a la democracia de lo común”, publicado logo após os grandes protestos que sacudiram a Espanha em 2011, Subirats advoga que as novas tecnologias de comunicação abalaram fortemente partidos, sindicatos e outras organizações “intermediárias”. Não teríamos outra alternativa a não ser passar por mudanças radicais na forma como nos relacionamos e lidamos com a política.

Em entrevista realizada em Barcelona no último dia 2 de junho, Subirats reafirmou sua crença, à partir da análise dos protestos que ocorreram nos últimos anos em vários países, da crise pela qual passam as instituições estatais e dos efeitos desse novo contexto para as organizações “tradicionais” e para os “novos movimentos” da sociedade civil.

Lucia Nader (LN) – Como você explica os protestos que aconteceram recentemente em vários países do mundo? O que eles tem em comum?

Joan Subirats (JS) – O que vivemos hoje é uma mudança de época, não uma crise, como muitos dizem. Quando vivemos uma crise, podemos esperar que passe, não é necessário mudar paradigmas ou conceitos. No entanto, quando vivemos uma mudança de época, como agora, não há saída a não ser mudar, se adaptar.

As mudanças tecnológicas que acompanham a internet provocam uma crise nas formas tradicionais de intermediação das relações humanas – e de representatividade democrática, que não deixa de ser uma forma de intermediação. Esse é o elemento comum entre muitos destes protestos e que abala fortemente a lógica da democracia representativa. Na Espanha isso se deu sob a bandeira do “no nos representan” (“não nos representam”) e que traz uma dupla mensagem. A primeira, de dizer aos eleitos que eles não estão fazendo o que nos prometeram e lembrar que o que eles fazem é em nosso nome. E a segunda, de afirmar que os eleitos não nos representam, pois não passam pelas mesmas situações e condições de vida pelas quais passamos. São muito diferentes da maioria da população e há uma “crise de semelhança”, um dos pilares que sustentavam a máquina eleitoral.

LN – Mas o que há de novo nisso tudo?

JS – A facilidade de não ter que passar por canais institucionais tradicionais contribuiu para que os protestos explodissem. Dou aqui um exemplo. Dia 14 de maio de 2011, houve uma manifestação contra os cortes de investimentos públicos. Esse protesto reuniu 4 vezes mais gente do que do que a grande manifestação do dia seguinte, o famoso 15M. Mas ninguém se lembra. Por que? Por que eram sindicatos, com os cartazes de sempre, organizados da mesma maneira como se organizam há décadas. Por outro lado, todos lembram do 15M, pois foram novos atores e novas formas de se organizar. Mesmo se numericamente foi menos significativo.

Naquela semana recebi uma ligação de um funcionário do governo pedindo conselhos: com qual liderança devemos dialogar? Quais suas demandas concretas? Como podemos incorporá-las e trazê-los para perto? Essas são perguntas do século passado.

Passamos de uma lógica de ação coletiva a uma lógica de “ação conectiva”. Há uma dificuldade imensa de continuarmos a aplicar os parâmetros que utilizamos até agora, como as noções de identidade, unidade e organização em torno de objetivos.

Além da novidade tecnológica, as mobilizações recentes foram baseadas em estruturas e formas de organização menos rígidas, em uma lógica de latência e “pertencimento múltiplo” (“multi-membership”). A adesão se deu em torno de campanhas e bandeiras e não de ideologias tradicionais como esquerda e direita. Os novos movimentos aparecem e desaparecem, não querem necessariamente ter uma unidade ou identidade perene. Preferem falar em “confluência”, em um momento específico, e tem uma “visão estética” com relação ao Estado.

Muitas vezes levantam a bandeira do “façamos nós mesmo” e, por isso, usam tantas expressões na primeira pessoa do plural – como “somos a mudança”, “podemos”, “ganhemos” – e não mais expressões que tínhamos antigamente – como “incidir”, “resistir”, etc. Os novos movimentos buscam construir o novo, de forma autônoma. Acreditam que o Estado tenha sido capturado (por interesses privados de poucos) e que tenhamos que construir novas formas de organização autônoma. Um exemplo disso é a cooperativa “Somos Energía”, uma cooperativa que provê energia elétrica alternativa aos seus 20 mil apoiadores, em cidades espanholas, para que não dependam da companhia de energia estatal.

LN – E por que há hoje tanta desconexão entre o que o indivíduo espera da democracia e aquilo que faz o Estado?

JS – Vivemos hoje uma individualização da vida, como diz Manuel Castells. Isso tem relação com o avanço tecnológico, mas não apenas. O funcionamento da democracia moderna e do Estado tal como conhecemos é baseado em algumas categorias que hoje estão abaladas. Antes, por exemplo, era mais fácil categorizar a sociedade em classes sociais. Hoje, com a precarização e individualização da força de trabalho, como fazemos isso? Outro exemplo é a categoria de “família”. Hoje, na Espanha, há 16 tipos distintos de famílias. E a família hetero, com filhos, não é mais a majoritária.

A estrutura estatal foi pensada relacionando qualidade com homogeneidade. Promover a igualdade era promover a homogeneidade e assim diminuir a heterogeneidade da sociedade. Hoje, o contrário de igualdade é desigualdade e o contrário de homogeneidade é a diversidade, algo muito valorizado.

A sociedade atual é baseada em 3 valores básicos: autonomia pessoal, igualdade e diversidade – e não mais liberdade e igualdade, os dois de antes.

Se tem algo que deveríamos aprender com os mercados é que quanto mais personalizado, melhor é o serviço prestado. O sistema Zarista (em referência à Zara) é personalizado – e talvez por isso vendam tanto. Não é mais o sistema Fordista, despersonalizado, homogêneo. A sociedade vive hoje no ‘Zarismo’ – e todas suas contradições – enquanto o Estado parou no Fordismo.

Lembro de um cartaz do 15M que dizia: “Democracia, te quiero – pero ultimamente te siento un poco ausente”. Isso ilustra bem o sentimento de que a democracia é algo bom, mas que a distância com relação às demandas individuais está grande demais.

LN – Essa mudança de época e a crise de intermediação afeta de alguma maneira as organizações não-governamentais “tradicionais”?

JS – Sim, afeta. Ao menos na Espanha, muitas dessas organizações viveram os protestos com um sentimento confuso, de frustração, e se perguntando por que não tem tanta força de atração e mobilização. Pararam para pensar em como podem recuperar de alguma maneira a “representatividade” que um dia tiveram, mesmo que seja com relação a grupos muito específicos, minorias, etc.

Algumas organizações se profissionalizaram demais. Além disso, se transformaram em um “quasi-estado”. Mas esse “ONGeísmo” foi utilizado pelo Estado apenas para ampliar a prestação de serviços e não para permitir que as organizações passassem a ser “co-produtoras” de políticas públicas. Ainda está muito arraigado o pressuposto de que apenas o Estado representa o interesse geral, público. Mas os novos movimentos defendem a ideia de que o público não se esgota no institucional e de que há uma capacidade coletiva de enfrentar problemas comuns, de todos. E isso pode passar ou não pelas instituições estatais.

LN – Mas, na prática, qual a diferença entre as “organizações tradicionais” e esses “novos movimentos”?

JS – Acho que os novos movimentos não tem como marca principal a sua eficácia profissional. O que é central para eles é a capacidade que tem de empoderar as pessoas e convertê-las em ativistas. Não são movimentos guiados por uma perspectiva de “resolução de problemas” (problem-solver), mas sim por uma perspectiva de fortalecimento do indivíduo. Isso se dá com base em casos individuais muito específicos que, somados, revelam e dão visibilidade a problemas estruturais e coletivos.

Um exemplo dessa dinâmica é a Plataforma de Afectados por la Hipoteca (PAH), que se fortaleceu muito depois dos protestos de 2011 e se encaixaria no que eu chamo de “novos movimentos”. Eles fazem um trabalho importante de advocacy política, propõem projetos de lei, levam casos à Corte de Estrasburgo, etc. Mas, ao mesmo tempo, ocupam prédios públicos ou em desuso e os adaptam para as famílias que não tem casa, fazem atos públicos de grande visibilidade (incluindo escrachos) e focam grande parte da energia em fazer com que as vítimas se tornem ativistas da causa, indo além de seus casos individuais. Quando uma vítima procura a PAH, ela é atendida e conversa com outra pessoa que sofreu um abuso parecido – e não necessariamente com um “especialista”, o que provavelmente aconteceria em uma organização mais tradicional. Isso faz parte de uma tentativa de recuperar a identidade individual que perdemos para o Estado, mostrar que a solução quase sempre não é técnica, mas sim política e coletiva.

De alguma maneira, acredito que os novos movimentos buscam manter vivo um outro lema do 15M, o “sí, se puede!” (“sim, podemos!”) ao criar um efeito dominó de incorporar, o tempo todo, novos apoiadores às suas causas.

LN – E quais seriam então os benefícios, o valor agregado, de ser uma instituição ou organização “sólida” e profissional – e não um movimento desse tipo?

JS – As organizações são capazes de criar raízes, espaços de sistematização de experiências, memória institucional e ação especializada. A desvantagem talvez seja a rigidez que acompanha tudo isso. Vejo isso na própria organização que eu coordeno. Temos que construir organizações que mantenham essas vantagens, mas sejam mais “líquidas”, mais capazes de se adaptar às mudanças da sociedade.

Talvez isso passe por criar organizações mais horizontais que partam de uma lógica de conhecimento expandido e não tão fragmentado. Isso tem impacto direto em tentarmos nos estruturar de outra maneira que não sejam áreas fixas, ou programas específicos, e ter mais capacidade de “fertilização cruzada” da expertise. Quem sabe trabalhar muito mais por desafios, do que por temas, áreas, estratégias.

É necessário, também, repensarmos a forma como nos comunicamos. Tanto com relação ao público externo, como entre as próprias pessoas da equipe. Qual o impacto no fluxo de trabalho de se escrever um texto ou publicação institucional pelo wiki, de forma colaborativa, por exemplo? É algo acessório ou impacta nos processos internos?

Por fim, temos que repensar a hierarquia dentro das organizações. Não estou dizendo que ela não deva existir, mas talvez ela tenha que ser baseada não no status que se tem, mas pelo valor que as outras pessoas da equipe atribuem ao seu trabalho, pela sua trajetória, seu conhecimento, etc. Pelo valor que aporta à organização. É a lógica pela qual opera o twitter, por exemplo. Você segue pessoas que são “nucleares” (nodes), que aportam informação e opinião que realmente importa. Deve ter algo parecido com isso em formas modernas de gestão de equipes e organizações.

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