Arriscando e Inovando em Direitos Humanos

LUCIA NADER and JOSÉ GUILHERME F. DE CAMPOS 8 July 2016
Originalmente publicado no Open Global Rights – em Português e em Inglês

Em nossa pesquisa, profissionais de direitos humanos, ativistas, acadêmicos e financiadores nos deram várias razões para não inovar. No entanto, os riscos são tão grandes quanto alguns pensam?
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É inegável que no mundo dos direitos humanos exista uma forte pressão, incluindo por parte de financiadores, para que se busque “o novo”. É também inegável que nossas sociedades estejam passando por mudanças que não podemos ignorar. Mas quando precisamos inovar? E como é que as organizações de direitos humanos – baseadas em valores inegociáveis – sentem-se diante dessa necessidade? Entre 2015-2016, entrevistamos 102 pessoas para fomentar um debate público sobre como organizações de direitos humanos da sociedade civil, incluindo financiadores, têm reagido e adaptado a tendências atuais, como por exemplo a multiplicidade de agendas, crescente fluxo de informação, ativismo não-institucional e crise de representatividade do Estado. Entre os entrevistados para a pesquisa “Organizações Sólidas em um Mundo Líquido”, tivemos acadêmicos de renome, representantes de ONGs e fundações de diversos países.

Inovação não é um panaceia Em geral, a resistência à inovação foi um tema recorrente. Entrevistados discordaram da tese segundo a qual inovar seria sempre bom – ou bom em si mesmo. A eterna busca pelo novo pode levar organizações a perder seu foco ou a se distrair constantemente com novos programas e projetos. Como Johanna Mair e Christian Seelos observaram, inovação não é um “santo graal”, apesar de muitas pessoas aparentemente se referirem a esse conceito como uma “panaceia para todos os males.” Não obstante, com base nas respostas que obtivemos, concluímos que resistir à inovação por medo de correr riscos também pode ser um erro. A inovação é importante, mas não deixa de ser uma escolha de cada organização – e não um imperativo. Pode ser um processo simples ou complexo, que requer ao mesmo tempo humildade e ambição.

Como, então, ONGs podem inovar de forma inteligente, sem se curvar a tendências e chavões?

A inovação depende tanto de fatores externos como de fatores internos, que dizem respeito ao contexto no qual as organizações atuam, bem como às suas características institucionais. Tendo isso em mente, cada organização precisa ajustar a definição de inovação ao seu contexto específico, para que esse processo seja útil para a sua própria missão, e esteja em sintonia com seu modus operandi, valores, estrutura e história.

Pelas entrevistas pudemos perceber que, pelo fato dos valores e princípios de direitos humanos serem inegociáveis, a ideia de inovação pode tornar-se muito desconfortável. Neste caso, o medo geral é que levar inovação ao extremo pode fazer com que os valores fundamentos de direitos humanos deem lugar ao relativismo.

Além disso, as vítimas de violações de direitos humanos já são vulneráveis demais para serem usadas como experimentos. Anos de experiência mostram, por exemplo, que há um “protocolo” a ser seguido ao colher depoimentos de vítimas de tortura, para que seu sofrimento e suas necessidades psicológicas sejam respeitados. Se inovarmos testando uma metodologia completamente nova, corremos o risco de ignorar sem a devida cautela estes protocolos já consolidados e de suma importância.

Em muitas ocasiões, no entanto, a inovação pode nascer da necessidade ou a pedido das próprias vítimas ou beneficiários. Como Susi Bascon, da Peace Brigades International (Reino Unido) nos contou: “Para mim, a necessidade (ou não) de inovar e como vamos fazê-lo [surgem] de conversas atentas com defensores dos direitos humanos e vítimas, e não de outros indicadores … Se perdermos contato com pessoas de fora da organização, como vamos saber quando e onde inovar?” Metodologias de planejamento com base na chamada abordagem centrada no ser humano são um bom exemplo e podem ser úteis para manter contato próximo e contínuo com os beneficiários e colocar as pessoas no centro da ação de uma organização, incluindo os integrantes de sua equipe.

A inovação é muitas vezes entendida apenas como adaptação às novas tecnologias e formas de comunicação, utilizar ferramentas on-line e integrar a “cultura de tecnologia” ao dia-a-dia da organização. Por um lado, a tecnologia pode gerar novas violações de direitos, como por exemplo a vigilância em massa por parte do Estado e ameaças à privacidade por empresas privadas. Os avanços tecnológicos podem, ainda, agravar a desigualdade, aumentar o desemprego e concentrar ainda mais a riqueza nas mãos de poucos poderosos. Miguel Lago, da Nossas Cidades (Brasil), também ressaltou as ambiguidades da aparente dicotomia entre on-line e off-line: “O primeiro tende a gerar envolvimento e laços relacionais superficiais, porém amplia o espectro de participação; ao passo que o segundo tende a gerar laços relacionais mais profundos sem ter, porém, o mesmo poder de mobilização.”

Por outro lado, tecnologia e conectividade podem ser benéficas para ONGs. Ferramentas, tais como aplicativos de celular, vídeos e outras “podem acelerar o processo de verificação de provas de violações de direitos, bem como aprimorar a qualidade e reduzir o tempo gasto na preparação de relatórios sobre violações,” disse uma das representantes do The Whistle, um aplicativo desenvolvido especificamente para enfrentar este desafio. Carroll Bogert da Human Rights Watch (EUA) ilustrou essa tendência: “Pela primeira vez, o número de vídeos que fizemos denunciando violações superou o número de relatórios impressos. Hoje, um pesquisador vai para missão a um país levando consigo uma câmera, ele(a) tuita durante a investigação, etc. Temos que nos adaptar”, nos disse.

Muitos entrevistados também relataram que o modelo de financiamento de uma organização influencia – e muito – em sua capacidade e disposição em inovar. Não há garantias de que novos métodos funcionarão. “Não temos dinheiro para errar. O modelo atual de financiamento da maioria das organizações não permite que elas ousem”, observou Ana Valéria Araújo do Fundo Brasil de Direitos Humanos. Foi quase unânime a afirmação de que financiamentos previsíveis, de longo prazo, e apoios institucionais – ao invés de financiamento por projeto – geram um ambiente mais propício a que organizações inovem e arrisquem mais. Esse tipo de financiamento também permite um diálogo mais fluido e honesto entre financiador e financiado, em que os dois lados saem ganhando.

Inovar ou não inovar?

Inovação não significa joga fora tudo o que foi construído, ignorando o histórico da organização, diminuindo a importância dos valores, princípios, persistência e conhecimento acumulados. Ousar e arriscar em novas estratégias, processos ou projetos pode, ou não, ser uma forma apropriada de lidar com velhos desafios. Um dos entrevistados nos disse que “uma organização precisa ser suficientemente sólida para poder ser líquida, se reinventar,” alertando para a importância de se buscar um equilíbrio entre persistir e inovar.

Além disso, Johanna Mair teve o cuidado de ressaltar que a busca por impacto não deve ser o único fator a levar uma organização a inovar: “O principal erro é medir o sucesso de uma inovação apenas por seu impacto. Inovar, se bem feito, também aprimora processos internos, o clima organizacional, a motivação da equipe e leva a avanços cognitivos.”

Ao desenvolver novos métodos, ONGs devem fazer uso de sua curiosidade. Recomendamos que organizações se perguntem o que inovação significa especificamente para eles; por que, onde e como elas desejam inovar; e quem vai liderar e participar desse processo. Nunca teremos todas as respostas e riscos serão assumidos. Para algumas organizações e indivíduos, este nível de risco é aceitável, mas para outros pode não o ser.

O que para algumas organizações é uma inovação, para outras pode ter o nome de ousadia, abertura a novos riscos ou adequação ao mundo atual. A questão, portanto, não é “inovar ou não inovar?”. A pergunta crucial é quais são as melhores formas de promover direitos hoje.

**Uma versão mais longa desse artigo foi publicada em Inglês, Espanhol e Português na edição 23 da SUR – Revista Internacional de Direitos Humanos.

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