Bingo (inovador) de direitos humanos 2016

Inovação é o conceito que mais aparece na minha pesquisa. Na maioria das vezes, junto com caretas daqueles que estão na ponta ou são financiadores em direitos humanos. Incluindo a minha em alguns casos.

“Quem sabe essa resistência acontece por que parece contraditório falar de inovação em um campo onde a persistência e resiliência são fatores fundamentais e consomem grande parte de nossa energia? Como inovar na entrada semanal em presídios para identificar abusos e tortura, por exemplo. Ou será por que imediatamente relacionamos inovação com tecnologia e há desconfiança e cada mais clareza dos limites de tudo ser tec?”, disse agora uma participante no #ihrfg2016sf (conferência anual do International Human Rights Funders Group, em San Francisco, nos Estados Unidos).

innovation

Concordo com as pistas levantadas por ela e adicionaria que há um cansaço de palavras “novas” que viram mantras antes de serem decantadas e compreendidas – foi assim com redes, empoderamento, accountability. Tenho ainda a impressão de que o fato de serem palavras em inglês já (me) dá uma certa preguiça – não por acaso, foram pensadas ou empacotadas no norte, sendo que muito já foi testado anteriormente fora da Europa e EUA. Entraram recentemente na cartela do bingo o design-thinking, lean start up, disruption and etc.

Ou, e talvez mais importante de tudo, por que resisto em sempre inovar quando lidamos com pessoas, vítimas, seres sofridos e abusados. Cuidado com qualquer tipo de “laboratório”. O velho parece ser mais respeitoso e seguro quando não lidamos com produtos.

Mas o pior é que continuo achando que precisamos inovar, e isso não é novo, é uma necessidade constante. Não pela inovação em si. Mas pela crença de que, mesmo já tendo conquistado muito, sempre podemos fazer melhor e isso exige uma pitada de “diferente” (nem que seja para não perder a motivação).

Crença de que o mundo está mudando – sempre mudou, mas hoje muda mais rápido, com complexidades mais aparentes e avanços exponenciais relacionados em grande parte pela tecnologia e velocidade da informação. Ou por uma desconfiança de que se todos falam em inovação no setor privado e tantas áreas sociais que não os direitos humanos, talvez estejam certos e precisemos inovar também.

No fim, não faço questão de usar o termo inovação. Me sinto amplamente contemplada com a demanda por mais criatividade, flexibilidade e diversidade de estratégia. Por mais comunicação com o mundo exterior. Por menos burocracia e formulário. Com tanto que o objetivo final seja ter impacto na vida real de pessoas, promover e proteger direitos e a democracia. Se isso exige inovação, que venha. E isso não impede que continuemos resistindo e apostando em “velhas” táticas. Mas que nem seja por puro medo ou preconceito com a mudança. Ou por que nos acostumamos e estamos fadados a um modelo de gestão e sustentabilidade (recursos financeiros) que nos impede de ver o mundo lá fora.

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