Viver é preciso. Planejar também?

Esse é o momento em que as ONGs estão fazendo um balanço de final de ano (que ano!) e ajeitando seu planejamento para 2016. Todo mundo cansado, sensação de que muito foi alcançado, mas frustração (ou ânimo) de que há muito a ser feito.

E lá vamos nós colocar no papel (muitas vezes em inglês, para que financiadores entendam) o que pretendemos fazer ano que vem. Tudo isso em plena coerência com aquilo que previmos que iríamos fazer nos próximos 3 ou 5 anos. Afinal, todos fingimos ter uma teoria da mudança única e mágica.

Opa, peraí. E como planejar um ano tão incerto?

superheroi

Pelas conversas e entrevistas que tenho feito, há um sentimento disseminado de que precisamos achar formas mais criativas e eficazes de nos planejar. O tal do quadro com objetivos, estratégias, atividades, resultados, responsáveis, cronograma e recursos – nessa ou outra ordem – não dá mais conta.

Parece ser mais importante do que nunca planejar bem. Caso contrário, fica-se a mercê da conjuntura, reativo e nos transformamos em “agências de notícias”.

Mas parece necessário planejar menos e num nível mais estratégico, acima do que estamos acostumados. O tempo “não planejado” não é tempo perdido, mas tempo investido para aproveitar janelas de oportunidades e situações políticas que podem beneficiar a causa.

Isso requer sintonia, criatividade e abertura à inovação (e o inerente apetite ao risco). É algo como saber ver e tentar surfar uma onda gigante, se aparecer (ao invés de estar de costas para ela consertando a prancha). Sempre é arriscado, a chance de tomar um caldo é grande – mas pode também ser a onda perfeita, antes da próxima mais perfeita ainda.

Uma das organizações que entrevistei – Anistia Internacional (escritório da Espanha) – está planejando cerca de 50% de seu tempo. Fizeram isso durante os protestos de 2011 e continuaram depois dos protestos. As reuniões de acompanhamento do planejamento se transformaram em “reuniões de conjuntura”. Nesse caso, eles não incorporam temas “novos” à agenda, mas usam a agenda a favor dos temas nos quais têm expertise. Há outras organizações que ampliam seu leque temático, conforme a conjuntura.

Não acho que tenha receita perfeita. Ao menos não achei ainda. Há tentativas de se aproximar das formas de planejamento das starts-ups, agressivas e dispostas a tentar-errar-acertar a todo momento (e idealmente com recursos para isso). Há também “novos” ou releituras de métodos dos setor privado, como OKR – Objectives and Key Results – ou mesmo teorias mais integrais, como variações acerca da Teoria U.

Um ponto pacífico e urgente é a necessidade dos financiadores entenderem e apoiarem esse esforço. Sem financiamento baseado em confiança, incentivo à criatividade, flexibilidade e previsibilidade não há onda perfeita que resolva. Nem organização e equipe (especialmente as famosas áreas-meio!) que aguente. Dito isso, não acho que o modelo de financiamento seja o culpado por todo mal – apesar de ser peça essencial e crucial dessa engrenagem toda. É importante reconhecer que, mesmo se o financiamento fosse diferente, teríamos que ser mais criativos e ousados em tentar pensar e trabalhar de outra forma (ao menos para as organizações que estão sentindo essa necessidade).

Tudo isso parece burocrático e banal frente à nobreza de construir um mundo melhor, que deve ser ser o objetivo principal e orientar qualquer esforço organizacional. O maior risco dos processos internos é fazer com que olhemos muito mais para dentro da organização do que para fora, para o motivo real de unir pessoas em torno de um ideal.

Mas só quem está no mar sabe o quanto de tempo, energia e dedicação isso requer de cada um e das equipes. Adoraria ouvir e conversar sobre novidades e ideias sobre tudo isso. Avante!
#orgssólidasmundolíquido #solidorgsliquidworld

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