Clear the way – Abram alas #AgoraÉqueSãoElas

One of the impacts of this fellowship project was to made me see my work through a feminine lens, as a woman. Last november, as part of a women’s rights campaign in Brazil, I published the article below in Folha de São (Brazil’s main newspaper).
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Um dos impactos da minha pesquisa foi perceber o trabalho que desenvolvo pela lente feminina, como mulher. Em novembro, parte de uma campanha pelos direitos das mulheres no Brasil, publiquei o artigo abaixo no jornal Folha de São Paulo.

IN ENGLISH

Clear the way
#AgoraÉqueSãoElas (#NowItsOurTimeLadies)

When you grow up, it’ll pass. But it didn’t pass. My desire to change the world and build a better country didn’t pass. Neither did my strength to fight for this, with my woman’s body and voice.

It was as a woman that I went for the first time, 20 years ago, to a prison full of women who were living their femininity behind bars. Women who have to undress for searches, have their bodies invaded and give birth in shackles. Some use sanitary towels made from breadcrumb.

It was as a woman that I addressed presidents, ministers and judges, reacting to sexist comments by looking them straight in the eye with an angry smile that meant to avoid submission. Female smiles can be effective, but they are always hard to digest.

It was as a woman that I was so often called a “girl” by the suits in the UN, who wanted to know which man I was assisting. Situations when, to be heard, I had conceal my curves, deepen my voice and adopt a more masculine tone. To furrow my brow to denounce the story of Kim, an elderly North Korean woman who was imprisoned for 30 years in a concentration camp where she was forced to kill one of her own children and eat its flesh.

It was as a woman that I travelled the world following the stories of other women for whom “it didn’t pass”. Like Consuelo and Antonia, the mother and daughter who crossed the Mexican border to the United States on foot. Or the women who poured onto the streets to call for democracy after the fall of the bloody dictatorship in Tunisia, where I am writing these lines.

And it was as a woman that, last week, I watched with excitement as women took to the streets across Brazil. The streets of a country that has also fought hard for its democracy and that routinely needs to strengthen it.

The shouts that we heard were provoked by Bill 5069/2013, which makes it difficult for rape victims to have an abortion: a piercing shout for more freedom to decide about our bodies and our lives.

It’s just the beginning. Clear the way, because it didn’t pass. We’re here to stay. #AgoraÉqueSãoElas (#NowItsOurTimeLadies)

Published at Folha de São Paulo newspaper (November, 5th, 2015)
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/matiasspektor/2015/11/1702398-abram-alas.shtml

IN PORTUGUESE

Abram alas
#AgoraÉqueSãoElas

Quando você crescer, passa. Mas não passou. Não passou a vontade de mudar o mundo e construir um país melhor. Nem a
força para lutar por isso, com meu corpo e voz de mulher.

Foi como mulher que entrei pela primeira vez, há 20 anos, num presídio repleto de mulheres que vivem sua feminilidade atrás das grades. Mulheres que são revistadas nuas, invadidas por dentro e algemadas durante o parto. Algumas utilizam absorventes feitos com miolo de pão.

Foi como mulher que me dirigi a presidentes, ministros e juízes, reagindo a comentários sexistas com o olho no olho, e um sorriso de raiva que buscava evitar a submissão esperada. Sorriso feminino às vezes eficaz, mas sempre difícil de digerir.

Foi como mulher que fui tantas vezes chamada de “menina” por engravatados na ONU, que queriam saber qual homem eu assessorava. Situações nas quais, para ser ouvida, precisei cobrir as curvas, engrossar a voz e masculinizar o tom. Franzir a testa para denunciar a história de Kim, idosa norte-coreana presa durante 30 anos em um campo de concentração, onde foi forçada a matar um dos filhos e comer-lhe a carne.

Foi como mulher que rodei o mundo acompanhando as histórias daqueles para quem ‘não passou’. Como a de Consuelo e Antonia, mãe e filha, que cruzaram a pé a fronteira do México com os EUA. Ou a das mulheres que foram às ruas para pedir democracia após a sanguinária ditadura da Tunísia, de onde escrevo estas linhas.

E foi como mulher que, semana passada, assisti emocionada à tomada das ruas por mulheres em todo o Brasil. Ruas de um país que também luta arduamente por sua democracia e que precisa fortalecê-la cotidianamente. O grito que ouvimos foi provocado pelo projeto de lei 5.069, que dificulta o aborto em casos de estupro: um grito estridente por mais liberdade para decidir sobre nossos corpos e sobre nossas vidas.

É só o começo. Abram alas, pois não passou. Estamos aqui para ficar.

Original publicado na Folha de São Paulo (5 de novembro, 2015)
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/matiasspektor/2015/11/1702398-abram-alas.shtml

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