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Mundo líquido: por que as ONGs e financiadores precisam ser mais flexíveis?

Entrevista para o Mobiliza (original publicado em http://www.mobilizaconsultoria.com.br/mundo-liquido-por-que-as-ongs-e-financiadores-precisam-ser-mais-flexiveis/)

Lucia Nader

Mundo líquido: por que as ONGs e financiadores precisam ser mais flexíveis?
7 de junho de 2016

Lucia Nader*, ativista de direitos humanos, é fellow da Open Society Foundations desde 2015, com quem realiza a pesquisa “Organizações Sólidas em um Mundo Líquido”. Para isso, ela conversou com 102 lideranças de organizações não governamentais (ONGs), acadêmicos e financiadores da área de direitos humanos. Nesta entrevista exclusiva, Lucia compartilha as principais conclusões do estudo e alguns caminhos para que as instituições possam adaptar-se a uma sociedade cada vez mais conectada e politicamente envolvida em causas sociais.

Mobiliza – Lucia, conte-nos como surgiu a ideia de realizar essa pesquisa.
Lucia Nader – Atuo na área social há 21 anos, sendo os últimos 13 especialmente dedicados aos direitos humanos. Em 2015, dei início a essa pesquisa para explorar como as organizações sociais e os financiadores vêm se adaptando à sociedade contemporânea, tendo de interagir com três tendências: diversidade de atores e rapidez da informação; o papel político do indivíduo, que hoje defende a própria causa (ou causas) e nem sempre se envolve com organizações e movimentos; e a crise de representatividade do Estado e seu reflexo nas ONGs que orbitam em volta dele. Um exemplo concreto: as manifestações que aconteceram no Brasil em junho de 2013. Vimos ali várias agendas, indivíduos querendo falar por si só e uma ampla crítica ao sistema. No meio de tudo isso, qual é o papel das ONGs e financiadores que estão historicamente lutando por um país melhor?

Mobiliza – Você sente que as ONGs e os financiadores são afetados por esse novo contexto?
LN – Sim. Tenho percebido a ansiedade das instituições sociais em adaptar-se a essa nova conformação, porque existem muitas dúvidas de como lidar com temas antigos, tão sólidos e estruturais (suas causas) e, ao mesmo tempo, estar aberto ao novo, ser mais flexível etc. Por exemplo, essas mudanças impactam uma organização que trabalha a 15 ou 20 anos no combate à tortura e como? Foi isso que tentei descobrir com minha pesquisa. Uma das conclusões é que as organizações estão sentindo a necessidade de se planejar com mais flexibilidade, deixar espaço para oportunidades conjunturais ou imprevistos. Há também uma percepção de que é preciso arriscar mais, testar estratégias novas.

Mobiliza – A solidez pode se tornar um obstáculo…
LN – Ser uma organização sólida não é um problema. Normalmente isso permite realizar ações de longo prazo, com impacto, porque mantêm uma equipe qualificada, estratégias diversificadas e articulação com interlocutores variados. O problema é quando a solidez deixa a ONG hermética demais e muito pesada. Não só as ONGs, os financiadores também.

Mobiliza – Então, como quebrar essa rigidez excessiva sem perder o foco?
LN – É importante que as ONGs e os financiadores façam algumas reflexões e isso está começando a ocorrer. Por exemplo, avaliar se devem estar mais próximos da sociedade. Se a resposta for sim: como fazer isso sem se tornar refém da opinião pública, por exemplo, buscando oportunidades conjunturais para defender suas causas. Ou seja, estar mais antenado com o que acontece na sociedade e na política. Também podem pensar “fora da caixa”, lançando mão de estratégias diferentes das que estão sempre à disposição, envolvendo mais risco e inovação. Um terceiro ponto, muito importante, é analisar de que forma se relacionam com o público externo e interno, ou seja, os beneficiários de suas ações e as pessoas que atuam nas suas equipes. Trabalhar, por exemplo, em organizações de direitos humanos, é penoso, custoso, dolorido. As pessoas são movidas por um tipo de raiva gerada pela injustiça. Em alguns casos sentem culpa por serem privilegiadas. Frustram-se muito porque nem sempre os resultados esperados são alcançados. Ou seja, é preciso olhar para a saúde física e emocional desses indivíduos. Como manter a criatividade e a resiliência para que continuem trabalhando em ações que fortaleçam a causa? As ONGs sólidas precisam saber o que move as pessoas a erguer suas bandeiras e as consequências de tudo isso para suas vidas. Acredito que o modelo de financiamento seja um componente que influencia tudo isso.

Mobiliza – De que forma esse modelo interfere no bem-estar das pessoas e na sustentabilidade sadia das instituições?
LN – As ONGs que entrevistei são brasileiras, europeias ou norte-americanas e têm de 15 a 20 anos, porte médio, equipe fixa, financiadas, principalmente, por grandes fundações internacionais – como a Fundação Ford e Open Society. É uma relação complexa, porque as instituições correm o risco de se preocupar mais com sua perpetuação (conseguir recursos para sobreviver) do que com sua pertinência e seu impacto – como bem me disse um dos entrevistados. Normalmente, o financiamento é por projetos e em um período de um ou dois anos, amarrando-se a atividades que não se sabe se terão sentido no médio prazo e sem flexibilidade para mudar o que foi prometido. Se queremos nos adaptar ao mundo atual é fundamental que o financiamento seja de longo prazo e institucional, prevendo a possibilidade do erro para que possam inovar e se arriscar mais, sem medo.

Mobiliza – E isso é responsabilidade do financiador?
LN – Em grande parte, sim. A relação dele com a ONG é construída com base na confiança, na troca de experiências? Ele conhece a realidade da instituição? Há de alguma forma um incentivo para que as organizações ousem, caso queiram? O processo burocrático (relatórios etc.) está saudável ou toma mais tempo da organização do que desenvolver as atividades que se propôs? Tanto o financiador como a ONG tem, a priori, o mesmo objetivo: alcançar alguma mudança ou melhoria na sociedade. As respostas a essas perguntas são fundamentais para que isso não se perca de vista.

Mobiliza – Na sua opinião, quais mudanças podem ajudar as organizações sólidas a se tornarem mais flexíveis e aproximarem-se de seus públicos?
LN – Há vários pontos importantes. Por exemplo, a maneira como elas se comunicam. Hoje essa comunicação é de mão dupla, e quase imediata, especialmente nas mídias sociais. É importante aproveitar algumas grandes notícias para falar da causa de um jeito mais quente. Não é só o relatório institucional, que tem sua valia e público específico. Percebe-se que algumas instituições têm medo de perder o controle sobre a informação, de sua narrativa. Isso é natural. No entanto, pode ser algo benéfico porque as pessoas vão reproduzir a sua mensagem de um jeito novo, mais palatável, que talvez não siga as normas técnicas esperadas, mas que é uma maneira diferente de divulgar a causa. A inovação é uma palavra superinflacionada. Está na moda. Muitas ONGs torcem o nariz ao ouvi-la. Mas é uma realidade. Então, é importante que cada organização defina para si o que é inovar, no que ela quer inovar (processos, estruturas, estratégias, linguagem?). Não precisa ser só na ponta. Quem quer inovar tem de contar com uma equipe que acredite na causa, mas que não tenha receio de errar, de recomeçar, de correr riscos. Do contrário, a solidez vai persistir de um jeito hermético, distanciando a organização cada vez mais da atual realidade.

Mobiliza – Para quem quiser acompanhar a pesquisa e saber mais, onde procurar informações?
LN – Estou construindo uma séria de vídeos, de três minutos, que sintetizam os temas da pesquisa. Já tenho dois no Youtube. O primeiro explora as três tendências, que citei nesta nossa conversa. O segundo entra no tema da inovação. Também mantenho uma página no Facebook e escrevo em um Blog. Tem bastante informação para quem quiser se aprofundar.

*Lucia Nader é pós-graduada em Desenvolvimento e Organizações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po) e bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi diretora da Conectas Direitos Humanos de 2011 a 2014.

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“Pagamos los justos por pecadores” – interview with Anthony Romero, ACLU

April 5th, 2016

ROMERO

Created almost 100 years ago, ACLU – American Civil Liberties Union is one of the oldest NGOs in the US. The organization is supported by more than 50.000 members and has 50 offices spread across the country. Its goal is “to defend and preserve the individual rights and liberties guaranteed by the Constitution and laws of the United State”.

I just interviewed Anthony Romero, ACLU’s director for the last 14 years, who told me how the organization is being challenged and is trying to adapt to contemporary societies.

1) Do you think NGOs are affected by the changes in the pace of information, the role of individuals as political actors and the crisis of representation of the state (the 3 main tensions I am analyzing in this research)?

Yes, totally. The pace of information translates into the need of NGOs to respond much quicker. The “turn around” and the response have to be quicker. We have to have much more clarity about our priorities – as it is impossible to track every development of every issue we work on – and to polish our many channels of communication with our societies. If you take too long to react, it is too late.

As for the role of individuals outside organizations, yes, there is much more individual kind of activism that enable and empower people. This is not an entirely new phenomenon, as we had spontaneous movements before, but now they are much more empowered with the new technologies. People expect to be able to voice their opinions and to get an answer, and quickly. For instance, our blog is today a place of dialogue and not a one-way communication. This is why we have started to develop tools to empower individual as political actors. One example is the Mobile Justice App – to film police conduct and send it to us. This increases the demands dramatically and you have to answer one by one. Now we have a “virtual intake”, 24 hours a day.

Finally, the crisis of representation of the state…I think it is more a perception of the whole ecosystem we are on. The crisis of belief in governments affects NGOs. A lot of individuals tell me “I don’t think any of these will matter”.

2) And how can NGOs face all these challenges?

Today we have to be have more clarity of what our priorities are, to be more transparent on what we want to do, how we are going to do it and if we achieved the results we wanted or not. We almost have to prove to people that they should not be that cynical about our work. “Pagan los justos por pecadores”. In other words, the cynicism around the state representation and effectiveness also affects how people see NGOs.

3) So we should worry that some people don’t trust NGOs?

Yes. ACLU’s membership is decreasing year after year, since the election of president Obama. A lot of people saw Bush as “crisis years” and they wanted to associate themselves to an organization to make a difference. This has changed with Obama. The only membership organization I know that the membership is increasing is Planned Parenthood – as there is a big buzz around abortion.

To face that we have been investing more on the “local”, states’ level, and to communicate better around the sense urgency. People are worried about what happen near them and not necessarily what is happening in Washington and at the Supreme Court.

4) How is currently the balance between legal and political work at ACLU?

One of our priorities is to do more political work, lobby, advocacy. Sometimes it is better to prevent a law from occurring than to litigate against it afterwards. It helps also to mobilize constituencies. We don’t need the public to bring lawsuits: I need lawyers and clients. On political work, we need the public and people can make a difference. If we can use constituency, members and supporters to help to push our agendas changes can happen.

Three years ago, we had 250 litigators and 70 working at staff with advocacy, with legislators at state and national level. In the last years, the political team is really growing.

One challenge for this is funding: the political work can sometimes not be paid with the grants we receive from big foundations – either because of the grants’ focus or due to legal and taxes constraints. So the political work is severely underfunded and we are trying to convince funders of its importance.

5) What else could be improved in the way ACLU is funded?

Most of the funding is still very project specific and take too long to be approved. An example: there were 31 governors that, after the San Bernardino case, said they were not receiving Syrian refugees anymore. So, 24 hours latter, we brought lawsuits against 3 states and won. If I had tried to convince my funders, I would have lost the opportunity and the timing. I decided to act right away, using some of the general operating support. By trying to be so strategic, having goals, results, indicators, … funders don’t react to opportunities or challenges we can not anticipate. And this is key today if we want to have impact.

6) Do you believe less in the rule of law and justice institutions than you use to?

No. It has not changed. The law has always been an effective tool for change and also has always been used by our opponents. Today we are more sophisticated and smarter. What is different is that today there are many more groups using the law against us. Fifty years ago there were not many US groups on the right of the political spectrum. Today we have many organizations from the right: the law is being used to pursue a conservative agenda. American Center for Law and Justice and Alliance Defending Freedom are two good examples. They are anti-LGBT cases, anti-abortion, anti-affirmative action at the Supreme Court, for instance. They are pretty much focused on the family and traditional values. We are in opposite sides.

7) And, I am curious to know what to expect from the future US president, even if this is not part of my research…

Donald Trump and Bernie Sanders have tapped to an angry populist movement in their respective parties. Is it not clear that any president will really be able to change the system in the way they are promising. I am worried that this kind of moment and investment in the cynicism towards institutions can be bad after all. What will happen when these promises based on cynicism against the State are broken? No one knows.

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El País :: Um desacordo entre manifestantes e os convocantes dos protestos?

Manifestantes percebem a corrupção afetando tanto Governo como oposição, a despeito do discurso seletivo dos grupos que tem chamado as manifestações. Também defendem serviços públicos universais e gratuitos como saúde e educação

PABLO ORTELLADO / ESTHER SOLANO / LUCIA NADER 18 AGO 2015 – (Original aqui e pesquisa completa aqui)

No último domingo, 16 de agosto, conduzimos mais uma pesquisa junto aos manifestantes que estavam nas ruas protestando contra o Governo federal e a situação política do país. Concluímos que, pelo menos em São Paulo, os manifestantes percebem a corrupção afetando tanto Governo, como oposição, a despeito do discurso seletivo dos grupos que tem chamado os protestos. Também destoando dos grupos liberais que lideram os protestos e pregam o Estado mínimo, os manifestantes defendem serviços públicos universais e gratuitos como saúde e educação. Esta pesquisa dá sequência a outra, que fizemos na manifestação do dia 12 de abril, que mostrou que a insatisfação e descrença dos manifestantes não estava concentrada na presidente Dilma e no PT, mas se estendia a todo o sistema político, incluindo todos os partidos, ONGs, movimentos sociais e a imprensa [1].

Apesar da descrença no sistema político ser generalizada, os grupos que lideram os protestos estão se empenhando em dar um tratamento seletivo à indignação, enfatizando a corrupção do Governo federal e poupando atores políticos como o presidente da Câmera Eduardo Cunha, que podem ser aliados úteis para um processo de impeachment.

Por isso, medimos a percepção da gravidade de escândalos de corrupção envolvendo governo e oposição e também a percepção de envolvimento de líderes políticos dos dois campos. Como era de se esperar, a quase totalidade dos manifestantes (99%) consideram grave os escândalos do mensalão e da Lava Jato. No entanto, constatamos que os escândalos de corrupção que envolvem o PSDB também são percebidos como graves. 80% dos manifestantes consideram grave o mensalão tucano e 87% consideram grave o escândalo de corrupção no metrô e na CPTM em São Paulo.

Quando investigamos a percepção do envolvimento individual de políticos dos dois campos com corrupção, a percepção é um pouco diferente, embora não tanto como se poderia esperar. 90% dos manifestantes consideram a presidente Dilma corrupta e 77% consideram o prefeito Fernando Haddad corrupto, mas uma parcela expressiva de 42% dos manifestantes considera também o governador Geraldo Alckmin corrupto e 38% consideram corrupto o senador Aécio Neves.

A descrença no sistema político como um todo, que tínhamos capturado na pesquisa da abril, poderia dar lugar a dois tipos de soluções: soluções que buscam ampliar e aprofundar a democracia ou saídas antipolíticas para a crise. A literatura sociológica, por exemplo, costuma apontar a valorização da democracia interna de movimentos e associações cívicas como base para uma reforma profunda do sistema democrático.

Assim, investigamos se os manifestantes estavam mais de acordo com soluções antipolíticas, como entregar o poder para militares, juízes ou atores de fora do jogo político tradicional, ou se, ao contrário, buscavam soluções que buscam aprofundar a democracia, com mais participação, seja institucional (por meio de plebiscitos) ou pela sociedade civil organizada (participação em ONGs e movimentos).

Os resultados, neste caso, foram mistos. 56% concordam totalmente ou em parte que para solucionar a crise é preciso entregar o poder para alguém que esteja fora do jogo político. 28% concordam totalmente ou em parte que a solução é entregar o poder para os militares e 64% para um juiz honesto. Por outro lado, 77% concordam total ou parcialmente que é preciso ampliar a participação por meio de mecanismos como o plebiscito e 59% por meio do fortalecimento de ONGs e movimentos sociais.

Buscamos também investigar se a indignação que alimentava as manifestações de 2015 tinha ligação com aquela que estava na base das de junho de 2013, a despeito da profunda diferença de orientação política das lideranças e da composição social dos protestos (formado por pessoas mais velhas e mais ricas). Diversas pesquisas de opinião tinham mostrado que as reivindicações de junho de 2013 consistiam numa combinação de rejeição do sistema representativo e demandas por mais e melhores direitos sociais, em particular, saúde, educação e transporte.

Assim, buscamos investigar em que medida os manifestantes concordavam com a universalidade e gratuidade desses serviços públicos que atendem direitos sociais. A questão não era apenas importante porque sugeria conexões profundas e mais ou menos ocultas entre as duas ondas de protesto, mas porque mostrava um grande desacordo entre o que pensam os manifestantes e o que pensam algumas das lideranças dos protestos, que tem uma orientação ultraliberal.

Constatamos índices muito elevados de defesa da universalidade e da gratuidade dos serviços públicos. Entre os manifestantes, 97% concordam total ou parcialmente que os serviços públicos de saúde devem ser universais e 96% que devem ser gratuitos. Já 98% concordam total ou parcialmente com a universalidade da educação pública e 97% com a sua gratuidade. Até mesmo uma demanda social recente e algo heterodoxa como a gratuidade do transporte coletivo (a “tarifa zero”) encontra 49% de apoio total ou parcial entre os manifestantes.

Por fim, buscamos investigar em que medida e de que maneira os manifestantes incorporavam a tendência de moralização da política conhecida como “guerras culturais” [2]. Essa tendência consiste tanto na proeminência cada vez maior de temas morais na agenda política (como drogas, direitos dos homossexuais, aborto e a pena capital), como no tratamento moral de questões sociais e políticas.

Assim, investigamos a concordância dos manifestantes com frases que expressam algumas dessas abordagens morais na política. Além de verificar a difusão e alcance dos discursos morais, queríamos saber se abordagens punitivas são mais frequentes em temas que envolvem relações entre as classes sociais (como desigualdade, criminalidade e imigração) e se, em temas relativos a direitos individuais (como homofobia, direitos das mulheres e drogas), predominam abordagens mais compreensivas.

Constatamos que em temas que envolvem relações entre as classes sociais, 70% concorda total ou parcialmente que “é justo que quem estudou e se esforçou mais na vida tenha alguns privilégios”; 86% concorda total ou parcialmente que “a melhor maneira de conseguir paz na sociedade é aumentando a punição aos criminosos” e 80% concorda total ou parcialmente que “negros não devem usar a cor da pele para conseguir privilégios como cotas raciais”.

Por outro lado, constatamos também que em termos de liberdades e direitos individuais (talvez porque podem envolver pessoas da mesma classe social), prevalecem posturas mais compreensivas e tolerantes. 79% dos manifestantes discordam que “haveria menos estupros se as mulheres tomassem mais cuidado e não usassem roupas curtas”; 61% discorda que “relacionamentos entre gays não são naturais e gays não deviam expressar afeto em público” e até mesmo 50% concorda total ou parcialmente que “as pessoas devem ter o direito de fumar maconha legalmente desde que não prejudiquem os demais”.

Notas:
[1] Esther Solano; Lucia Nader; Pablo Ortellado. “Um protesto contra todo o sistema político?” El País. 14 de abril de 2015. Disponível aqui.
[2] Pablo Ortellado “Guerras culturais no Brasil” Le Monde Diplomatique Brasil.Disponível aqui.
Pablo Ortellado é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP;Esther Solano é professora de Relações Internacionais da UNIFESP; Lucia Naderé cientista política pela Sciences Po-Paris e fellow da Fundação Open Society.

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Entrevista :: Joan Subirats – “Vivemos uma mudança de época e não há outra saída a não ser mudarmos também”

Joan Subirats é um dos grandes intelectuais espanhóis da atualidade, professor da Universidade Autônoma de Barcelona e coordenador do IGOP – Instituto de Governo e Políticas Públicas. De origem catalã, tem se dedicado a estudar a crise das instituições representativas e suas consequências para a democracia tal como conhecemos hoje.

No livro “Otra Sociedad, otra Política? – de «no nos representan» a la democracia de lo común”, publicado logo após os grandes protestos que sacudiram a Espanha em 2011, Subirats advoga que as novas tecnologias de comunicação abalaram fortemente partidos, sindicatos e outras organizações “intermediárias”. Não teríamos outra alternativa a não ser passar por mudanças radicais na forma como nos relacionamos e lidamos com a política.

Em entrevista realizada em Barcelona no último dia 2 de junho, Subirats reafirmou sua crença, à partir da análise dos protestos que ocorreram nos últimos anos em vários países, da crise pela qual passam as instituições estatais e dos efeitos desse novo contexto para as organizações “tradicionais” e para os “novos movimentos” da sociedade civil.

Lucia Nader (LN) – Como você explica os protestos que aconteceram recentemente em vários países do mundo? O que eles tem em comum?

Joan Subirats (JS) – O que vivemos hoje é uma mudança de época, não uma crise, como muitos dizem. Quando vivemos uma crise, podemos esperar que passe, não é necessário mudar paradigmas ou conceitos. No entanto, quando vivemos uma mudança de época, como agora, não há saída a não ser mudar, se adaptar.

As mudanças tecnológicas que acompanham a internet provocam uma crise nas formas tradicionais de intermediação das relações humanas – e de representatividade democrática, que não deixa de ser uma forma de intermediação. Esse é o elemento comum entre muitos destes protestos e que abala fortemente a lógica da democracia representativa. Na Espanha isso se deu sob a bandeira do “no nos representan” (“não nos representam”) e que traz uma dupla mensagem. A primeira, de dizer aos eleitos que eles não estão fazendo o que nos prometeram e lembrar que o que eles fazem é em nosso nome. E a segunda, de afirmar que os eleitos não nos representam, pois não passam pelas mesmas situações e condições de vida pelas quais passamos. São muito diferentes da maioria da população e há uma “crise de semelhança”, um dos pilares que sustentavam a máquina eleitoral.

LN – Mas o que há de novo nisso tudo?

JS – A facilidade de não ter que passar por canais institucionais tradicionais contribuiu para que os protestos explodissem. Dou aqui um exemplo. Dia 14 de maio de 2011, houve uma manifestação contra os cortes de investimentos públicos. Esse protesto reuniu 4 vezes mais gente do que do que a grande manifestação do dia seguinte, o famoso 15M. Mas ninguém se lembra. Por que? Por que eram sindicatos, com os cartazes de sempre, organizados da mesma maneira como se organizam há décadas. Por outro lado, todos lembram do 15M, pois foram novos atores e novas formas de se organizar. Mesmo se numericamente foi menos significativo.

Naquela semana recebi uma ligação de um funcionário do governo pedindo conselhos: com qual liderança devemos dialogar? Quais suas demandas concretas? Como podemos incorporá-las e trazê-los para perto? Essas são perguntas do século passado.

Passamos de uma lógica de ação coletiva a uma lógica de “ação conectiva”. Há uma dificuldade imensa de continuarmos a aplicar os parâmetros que utilizamos até agora, como as noções de identidade, unidade e organização em torno de objetivos.

Além da novidade tecnológica, as mobilizações recentes foram baseadas em estruturas e formas de organização menos rígidas, em uma lógica de latência e “pertencimento múltiplo” (“multi-membership”). A adesão se deu em torno de campanhas e bandeiras e não de ideologias tradicionais como esquerda e direita. Os novos movimentos aparecem e desaparecem, não querem necessariamente ter uma unidade ou identidade perene. Preferem falar em “confluência”, em um momento específico, e tem uma “visão estética” com relação ao Estado.

Muitas vezes levantam a bandeira do “façamos nós mesmo” e, por isso, usam tantas expressões na primeira pessoa do plural – como “somos a mudança”, “podemos”, “ganhemos” – e não mais expressões que tínhamos antigamente – como “incidir”, “resistir”, etc. Os novos movimentos buscam construir o novo, de forma autônoma. Acreditam que o Estado tenha sido capturado (por interesses privados de poucos) e que tenhamos que construir novas formas de organização autônoma. Um exemplo disso é a cooperativa “Somos Energía”, uma cooperativa que provê energia elétrica alternativa aos seus 20 mil apoiadores, em cidades espanholas, para que não dependam da companhia de energia estatal.

LN – E por que há hoje tanta desconexão entre o que o indivíduo espera da democracia e aquilo que faz o Estado?

JS – Vivemos hoje uma individualização da vida, como diz Manuel Castells. Isso tem relação com o avanço tecnológico, mas não apenas. O funcionamento da democracia moderna e do Estado tal como conhecemos é baseado em algumas categorias que hoje estão abaladas. Antes, por exemplo, era mais fácil categorizar a sociedade em classes sociais. Hoje, com a precarização e individualização da força de trabalho, como fazemos isso? Outro exemplo é a categoria de “família”. Hoje, na Espanha, há 16 tipos distintos de famílias. E a família hetero, com filhos, não é mais a majoritária.

A estrutura estatal foi pensada relacionando qualidade com homogeneidade. Promover a igualdade era promover a homogeneidade e assim diminuir a heterogeneidade da sociedade. Hoje, o contrário de igualdade é desigualdade e o contrário de homogeneidade é a diversidade, algo muito valorizado.

A sociedade atual é baseada em 3 valores básicos: autonomia pessoal, igualdade e diversidade – e não mais liberdade e igualdade, os dois de antes.

Se tem algo que deveríamos aprender com os mercados é que quanto mais personalizado, melhor é o serviço prestado. O sistema Zarista (em referência à Zara) é personalizado – e talvez por isso vendam tanto. Não é mais o sistema Fordista, despersonalizado, homogêneo. A sociedade vive hoje no ‘Zarismo’ – e todas suas contradições – enquanto o Estado parou no Fordismo.

Lembro de um cartaz do 15M que dizia: “Democracia, te quiero – pero ultimamente te siento un poco ausente”. Isso ilustra bem o sentimento de que a democracia é algo bom, mas que a distância com relação às demandas individuais está grande demais.

LN – Essa mudança de época e a crise de intermediação afeta de alguma maneira as organizações não-governamentais “tradicionais”?

JS – Sim, afeta. Ao menos na Espanha, muitas dessas organizações viveram os protestos com um sentimento confuso, de frustração, e se perguntando por que não tem tanta força de atração e mobilização. Pararam para pensar em como podem recuperar de alguma maneira a “representatividade” que um dia tiveram, mesmo que seja com relação a grupos muito específicos, minorias, etc.

Algumas organizações se profissionalizaram demais. Além disso, se transformaram em um “quasi-estado”. Mas esse “ONGeísmo” foi utilizado pelo Estado apenas para ampliar a prestação de serviços e não para permitir que as organizações passassem a ser “co-produtoras” de políticas públicas. Ainda está muito arraigado o pressuposto de que apenas o Estado representa o interesse geral, público. Mas os novos movimentos defendem a ideia de que o público não se esgota no institucional e de que há uma capacidade coletiva de enfrentar problemas comuns, de todos. E isso pode passar ou não pelas instituições estatais.

LN – Mas, na prática, qual a diferença entre as “organizações tradicionais” e esses “novos movimentos”?

JS – Acho que os novos movimentos não tem como marca principal a sua eficácia profissional. O que é central para eles é a capacidade que tem de empoderar as pessoas e convertê-las em ativistas. Não são movimentos guiados por uma perspectiva de “resolução de problemas” (problem-solver), mas sim por uma perspectiva de fortalecimento do indivíduo. Isso se dá com base em casos individuais muito específicos que, somados, revelam e dão visibilidade a problemas estruturais e coletivos.

Um exemplo dessa dinâmica é a Plataforma de Afectados por la Hipoteca (PAH), que se fortaleceu muito depois dos protestos de 2011 e se encaixaria no que eu chamo de “novos movimentos”. Eles fazem um trabalho importante de advocacy política, propõem projetos de lei, levam casos à Corte de Estrasburgo, etc. Mas, ao mesmo tempo, ocupam prédios públicos ou em desuso e os adaptam para as famílias que não tem casa, fazem atos públicos de grande visibilidade (incluindo escrachos) e focam grande parte da energia em fazer com que as vítimas se tornem ativistas da causa, indo além de seus casos individuais. Quando uma vítima procura a PAH, ela é atendida e conversa com outra pessoa que sofreu um abuso parecido – e não necessariamente com um “especialista”, o que provavelmente aconteceria em uma organização mais tradicional. Isso faz parte de uma tentativa de recuperar a identidade individual que perdemos para o Estado, mostrar que a solução quase sempre não é técnica, mas sim política e coletiva.

De alguma maneira, acredito que os novos movimentos buscam manter vivo um outro lema do 15M, o “sí, se puede!” (“sim, podemos!”) ao criar um efeito dominó de incorporar, o tempo todo, novos apoiadores às suas causas.

LN – E quais seriam então os benefícios, o valor agregado, de ser uma instituição ou organização “sólida” e profissional – e não um movimento desse tipo?

JS – As organizações são capazes de criar raízes, espaços de sistematização de experiências, memória institucional e ação especializada. A desvantagem talvez seja a rigidez que acompanha tudo isso. Vejo isso na própria organização que eu coordeno. Temos que construir organizações que mantenham essas vantagens, mas sejam mais “líquidas”, mais capazes de se adaptar às mudanças da sociedade.

Talvez isso passe por criar organizações mais horizontais que partam de uma lógica de conhecimento expandido e não tão fragmentado. Isso tem impacto direto em tentarmos nos estruturar de outra maneira que não sejam áreas fixas, ou programas específicos, e ter mais capacidade de “fertilização cruzada” da expertise. Quem sabe trabalhar muito mais por desafios, do que por temas, áreas, estratégias.

É necessário, também, repensarmos a forma como nos comunicamos. Tanto com relação ao público externo, como entre as próprias pessoas da equipe. Qual o impacto no fluxo de trabalho de se escrever um texto ou publicação institucional pelo wiki, de forma colaborativa, por exemplo? É algo acessório ou impacta nos processos internos?

Por fim, temos que repensar a hierarquia dentro das organizações. Não estou dizendo que ela não deva existir, mas talvez ela tenha que ser baseada não no status que se tem, mas pelo valor que as outras pessoas da equipe atribuem ao seu trabalho, pela sua trajetória, seu conhecimento, etc. Pelo valor que aporta à organização. É a lógica pela qual opera o twitter, por exemplo. Você segue pessoas que são “nucleares” (nodes), que aportam informação e opinião que realmente importa. Deve ter algo parecido com isso em formas modernas de gestão de equipes e organizações.

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Pesquisa :: Confiança no sistema político, 12/04/15

A pesquisa completa está disponível em http://www.lage.ib.usp.br/manif/.

Pesquisa com os participantes da manifestação do dia 12 de abril de 2015 sobre confiança no sistema político e fontes de informação. Foram realizadas 571 entrevistas com manifestantes maiores de 16 anos. As entrevistas foram conduzidas entre as 13:30 e as 17:30 do dia 12 de abril e distribuídas por toda a extensão da Avenida Paulista. Margens de erro de até 2.1 %

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