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A plutocracia não cabe no orçamento (Laura Carvalho, Folha de São Paulo)

9 de junho de 2016 – original em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/laura-carvalho/2016/06/1779720-a-plutocracia-nao-cabe-no-orcamento.shtml)

No levantamento realizado pelos pesquisadores Pablo Ortellado, Esther Solano e Lucia Nader na avenida Paulista durante as manifestações pró-impeachment do dia 16 de agosto de 2015, dois temas chamaram a atenção. Entre os manifestantes, 97% concordaram total ou parcialmente que os serviços públicos de saúde devem ser universais, e 96%, que devem ser gratuitos. Já sobre a universalidade e a gratuidade da educação, o apoio foi de 98% e 97% dos manifestantes, respectivamente. “Isso é um resquício de junho de 2013”, afirmou Pablo Ortellado a uma reportagem do jornal “El País” de 18 de agosto de 2015.

O resultado deste tipo de levantamento, quando somado aos resultados nas urnas das últimas quatro eleições presidenciais, sugere que o pacto social que deu origem à Constituição de 1988 não foi desfeito. Ao contrário, as demandas nas ruas desde 2013 e nas ocupações das escolas desde 2015 têm sido por melhorias nos serviços públicos universais, e não pela redução na sua prestação.

A regra Temer-Meirelles prevê que as despesas primárias do governo federal passem a ser reajustadas apenas pela inflação do ano anterior. Se vigorasse no ano passado, e outros gastos não sofressem redução real, as despesas com saúde teriam sido reduzidas em 32% e os gastos com educação em 70% em 2015.

Pior. Se o PIB brasileiro crescer nos próximos 20 anos no ritmo dos anos 1980 e 1990, passaríamos de um percentual de gastos públicos em relação ao PIB da ordem de 40% para 25%, patamar semelhante ao verificado em Burkina Faso ou no Afeganistão. E, se crescêssemos às taxas mais altas que vigoraram nos anos 2000, o percentual seria ainda menor, da ordem de 19%, o que nos aproximaria de países como o Camboja e Camarões.

“A Constituição não cabe no Orçamento”, argumentam seus defensores, na tentativa de transformar em técnica uma decisão que deveria ser democrática. De fato, há uma contradição evidente entre desejar a qualidade dos serviços públicos da Dinamarca e pagar impostos da Guiné Equatorial.

O que esquecem de ressaltar é que os que pagam mais impostos no Brasil são os que têm menos condições de pagá-los. Se os que ganham mais de 160 salários mínimos por mês têm 65,8% de seus rendimentos isentos de tributação pela Receita Federal, fica um pouco mais difícil determinar o que cabe e o que não cabe no Orçamento.

O fato é que as propostas do governo interino não incluem nenhum imposto a mais para os mais ricos, mas preveem muitos direitos a menos para os demais.

Os magistrados conseguem reajuste de seus supersalários, mas a aposentadoria para os trabalhadores rurais é tratada como rombo.

A cultura, a ciência e a tecnologia ou o combate a desigualdades deixam de ser importantes. O pagamento de juros escorchantes sobre a dívida pública não é sequer discutido, mas as despesas com os sistemas de saúde e educação são tratadas como responsáveis pela falta de margem de manobra para a política fiscal.

Essas escolhas estão sendo feitas por um governo que não teve de passar pelo debate democrático que só um processo de eleições diretas pode proporcionar. A democracia caberia no Orçamento. O que parece não caber é a nossa plutocracia oligárquica.

* Laura Carvalho é professora do Departamento de Economia da FEA-USP com doutorado na New School for Social Research (NYC). Escreve às quintas-feiras.

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Clear the way – Abram alas #AgoraÉqueSãoElas

One of the impacts of this fellowship project was to made me see my work through a feminine lens, as a woman. Last november, as part of a women’s rights campaign in Brazil, I published the article below in Folha de São (Brazil’s main newspaper).
***
Um dos impactos da minha pesquisa foi perceber o trabalho que desenvolvo pela lente feminina, como mulher. Em novembro, parte de uma campanha pelos direitos das mulheres no Brasil, publiquei o artigo abaixo no jornal Folha de São Paulo.

IN ENGLISH

Clear the way
#AgoraÉqueSãoElas (#NowItsOurTimeLadies)

When you grow up, it’ll pass. But it didn’t pass. My desire to change the world and build a better country didn’t pass. Neither did my strength to fight for this, with my woman’s body and voice.

It was as a woman that I went for the first time, 20 years ago, to a prison full of women who were living their femininity behind bars. Women who have to undress for searches, have their bodies invaded and give birth in shackles. Some use sanitary towels made from breadcrumb.

It was as a woman that I addressed presidents, ministers and judges, reacting to sexist comments by looking them straight in the eye with an angry smile that meant to avoid submission. Female smiles can be effective, but they are always hard to digest.

It was as a woman that I was so often called a “girl” by the suits in the UN, who wanted to know which man I was assisting. Situations when, to be heard, I had conceal my curves, deepen my voice and adopt a more masculine tone. To furrow my brow to denounce the story of Kim, an elderly North Korean woman who was imprisoned for 30 years in a concentration camp where she was forced to kill one of her own children and eat its flesh.

It was as a woman that I travelled the world following the stories of other women for whom “it didn’t pass”. Like Consuelo and Antonia, the mother and daughter who crossed the Mexican border to the United States on foot. Or the women who poured onto the streets to call for democracy after the fall of the bloody dictatorship in Tunisia, where I am writing these lines.

And it was as a woman that, last week, I watched with excitement as women took to the streets across Brazil. The streets of a country that has also fought hard for its democracy and that routinely needs to strengthen it.

The shouts that we heard were provoked by Bill 5069/2013, which makes it difficult for rape victims to have an abortion: a piercing shout for more freedom to decide about our bodies and our lives.

It’s just the beginning. Clear the way, because it didn’t pass. We’re here to stay. #AgoraÉqueSãoElas (#NowItsOurTimeLadies)

Published at Folha de São Paulo newspaper (November, 5th, 2015)
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/matiasspektor/2015/11/1702398-abram-alas.shtml

IN PORTUGUESE

Abram alas
#AgoraÉqueSãoElas

Quando você crescer, passa. Mas não passou. Não passou a vontade de mudar o mundo e construir um país melhor. Nem a
força para lutar por isso, com meu corpo e voz de mulher.

Foi como mulher que entrei pela primeira vez, há 20 anos, num presídio repleto de mulheres que vivem sua feminilidade atrás das grades. Mulheres que são revistadas nuas, invadidas por dentro e algemadas durante o parto. Algumas utilizam absorventes feitos com miolo de pão.

Foi como mulher que me dirigi a presidentes, ministros e juízes, reagindo a comentários sexistas com o olho no olho, e um sorriso de raiva que buscava evitar a submissão esperada. Sorriso feminino às vezes eficaz, mas sempre difícil de digerir.

Foi como mulher que fui tantas vezes chamada de “menina” por engravatados na ONU, que queriam saber qual homem eu assessorava. Situações nas quais, para ser ouvida, precisei cobrir as curvas, engrossar a voz e masculinizar o tom. Franzir a testa para denunciar a história de Kim, idosa norte-coreana presa durante 30 anos em um campo de concentração, onde foi forçada a matar um dos filhos e comer-lhe a carne.

Foi como mulher que rodei o mundo acompanhando as histórias daqueles para quem ‘não passou’. Como a de Consuelo e Antonia, mãe e filha, que cruzaram a pé a fronteira do México com os EUA. Ou a das mulheres que foram às ruas para pedir democracia após a sanguinária ditadura da Tunísia, de onde escrevo estas linhas.

E foi como mulher que, semana passada, assisti emocionada à tomada das ruas por mulheres em todo o Brasil. Ruas de um país que também luta arduamente por sua democracia e que precisa fortalecê-la cotidianamente. O grito que ouvimos foi provocado pelo projeto de lei 5.069, que dificulta o aborto em casos de estupro: um grito estridente por mais liberdade para decidir sobre nossos corpos e sobre nossas vidas.

É só o começo. Abram alas, pois não passou. Estamos aqui para ficar.

Original publicado na Folha de São Paulo (5 de novembro, 2015)
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/matiasspektor/2015/11/1702398-abram-alas.shtml

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El País :: A discord between demonstrators and the organizers of antigovernment protests in Brazil?

PABLO ORTELLADO / LUCIA NADER/ ESTHER SOLANO*

Demonstrators recognize that both the government and the opposition are guilty of corruption, despite the selective discourse of the groups coordinating the demonstrations. Surprisingly, they also support universal and free public services such as healthcare and education.

On August 16, we conducted a survey with demonstrators who were on the streets protesting against the federal government and the political situation in the country. We concluded that, at least in São Paulo, the demonstrators recognize that both the government and the opposition are guilty of corruption, despite the selective discourse of the groups that organized the protests. Also at odds with the right wing groups that are leading the protests and preach small government, the demonstrators support universal and free public services such as healthcare and education. This survey follows up on another one that we conducted at the demonstration on April 12, which revealed that the dissatisfaction and distrust of the demonstrators was not focused on President Dilma Rousseff and her Workers’ Party (PT), but extended to the entire political system, including all parties, NGOs, social movements and the press [1].

Although the distrust in the political system is widespread, the groups leading the protests are doing their best to selectively channel the indignation, emphasizing the corruption of the federal government and sparing other political actors, such as the president of the Lower House of Congress, Eduardo Cunha, who could be useful allies in an impeachment process.

Accordingly, we measured perceptions of the severity of corruption scandals involving the government and the opposition and also perceptions of the involvement of the political leaders of both sides. Nearly all the demonstrators (99%) considered the corruption scandals involving the ruling Workers Party to be serious — both the “mensalão” vote-buying scandal and the “Lava Jato” kickback scheme. However, we also found that the corruption scandals involving the opposition Social Democratic Party (PSDB) are also perceived as serious. Of the scandals in which the PSDB is implicated, 80% of the demonstrators considered the “mensalão tucano” campaign funding scheme to be serious and 87% considered the price-fixing of commuter rail construction contracts in São Paulo to be serious.

When we examined perceptions of the individual involvement of politicians from the two sides in corruption, things were a little different, although not as much as might have been expected. 90% of the demonstrators considered President Rousseff of the PT to be corrupt and 77% considered Mayor Fernando Haddad of the PT to be corrupt, but a sizable portion (42%) of the demonstrators also considered Governor Geraldo Alckmin of the PSDB to be corrupt and 38% considered Senator Aécio Neves of the PSDB to be corrupt.

The distrust in the political system as a whole, captured in the April survey, could pave the way for two different types of solutions: those that attempt to broaden and deepen democracy or non-political solutions to the crisis. The sociological literature, for example, usually identifies the emphasis on the internal democracy of civic associations and social movements as the basis for an in-depth reform of the democratic system.

As such, we inquired whether the demonstrators were more in agreement with the non-political solutions, such as giving power to the military, judges or actors outside traditional politics, or if instead, they wanted solutions that attempt to strengthen democracy, with more participation – whether institutional (through plebiscite) or by organized civil society (participation in NGOs and movements).

The results, in this case, were mixed. 56% agreed fully or in part that, to solve the crisis, it is necessary to hand power to someone outside the political system. 28% agreed fully or in part that the solution is to give power to the military and 64% said to an honest judge. Meanwhile, 77% agreed in full or in part that participation needs to be increased through mechanisms such as plebiscite and 59% said by strengthening NGOs and social movements.

We also sought to determine whether the indignation driving the demonstrations of 2015 is similar to the concerns that prompted the protests of June 2013, despite the profound difference in the political orientation of the leaders and the social composition of the protests (formed by older and richer people). Various opinion polls have shown that the indignation in June 2013 consisted of a combination of a rejection of the representative system and demands for more and better social rights, particularly healthcare, education and transport.

As such, we sought to investigate to what extent the demonstrators agreed that public services that provide social rights should be universal and free. This question was important not only because it indicated profound and more or less hidden connections between the two waves of protests, but also because it revealed a major discord between the
beliefs of the demonstrators and those of the leaders of the protests – who have a strong neoliberal orientation.

We encountered extremely high levels of support for universal and free public services. Among the demonstrators, 97% agreed in full or in part that healthcare should be universal and 96% said it should be free. Moreover, 98% agreed in full or in part that education should be universal and 97% said it should be free. Even the recent social and somewhat heterodox demand for free public transport (called “tarifa zero” or “zero fare” in Brazil) was supported in full or in part by 49% of the demonstrators.

Finally, we sought to investigate the extent and the way in which the demonstrators have incorporated the current trend of moralization of politics known as “culture wars” [2]. This trend consists of both an increasing prominence of moral issues on the political agenda (such as drugs, gay rights, abortion and capital punishment) and a moral treatment of social and political matters.

As such, we asked whether the demonstrators agreed with a series of phrases that express some of these moral attitudes in politics. In addition to identifying the scope and reach of the moral discourses, we wanted to know whether punitive attitudes were more frequent for issues involving relations between social classes (such as inequality, criminality and immigration) and whether, on issues related to individual rights (such as homophobia, women’s rights and drugs), more permissive attitudes predominated.

We found that on issues involving relations between social classes, 70% agreed in full or in part that “it is fair that people who have studied and worked hard in their lives should have some privileges”; 86% agreed in full or in part that “the best way to achieve peace in society is through harsher punishments for criminals” and 80% agreed in full or in part that “blacks should not use their skin color to obtain privileges such as racial quotas”.

Meanwhile, we also found that more permissive and tolerant attitudes prevail on matters of individual rights and freedoms (perhaps because they can involve people of the same social class). 79% of the demonstrators disagreed that “rape would be less frequent if women were more careful and didn’t wear revealing clothing”; 61% disagreed that “relationships between gays are unnatural and gays should not show affection in public” and 50% even agreed in full or in part that “people should have the right to smoke marijuana legally provided they do not harm others”.

*Original version published in El País, Brazil (August, 18th, 2015).

Footnotes:
[1] Esther Solano; Lucia Nader; Pablo Ortellado. “Um protesto contra todo o sistema político?” El País. April 14, 2015. Available here.
[2] Pablo Ortellado “Guerras culturais no Brasil” Le Monde Diplomatique Brasil. Available here.
Pablo Ortellado is a professor of the Public Policy Management course at the School of Arts, Sciences and Humanities of the University of São Paulo (EACH-USP) and an Open Society Foundations fellow; Esther Solano is a professor of International Relations at the Federal University of São Paulo (UNIFESP); Lucia Nader is a political scientist at Sciences Po-Paris and an Open Society Foundations fellow.

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Carta Capital :: A Espanha das ruas às urnas: e agora?

O país aguarda para saber se os novos partidos conseguirão transformar o sistema ou vão sucumbir diante do poder

por Lucia Nader — publicado na Carta Capital em 02/06/2015 03h53, última modificação 02/06/2015 17h45

Há uma semana a Espanha acordou caminhando à esquerda. Ada Colau foi eleita prefeita de Barcelona e, em Madri, Manuela Carmena foi a segunda colocada e deve ser a prefeita de fato. Ada é ativista antidespejo e uma das protagonistas do movimento 15M e dos protestos de 2011, que fizeram tremer as praças espanholas. Manuela é ex-juíza e defensora dos direitos humanos desde a luta contra a ditadura franquista. As duas representam uma renovação na política espanhola e trazem ao poder o eco das vozes que tomaram as ruas do País há 4 anos. Trazem também um ar fresco para as eleições gerais que acontecerão em novembro e a um mundo descrente na política.

Mas o que há de realmente novo na terra do rei Juan Carlos e de seu filho Felipe VI?

As duas campanhas foram marcadas por inovações e são frutos de coalizões formadas por partidos novos ou alternativos na cena espanhola. Isso, em si, já é uma novidade em um país que, desde 1982, alimenta o bipartidarismo entre o Partido Socialista Obrero Español (PSOE) e o Partido Popular (PP).

A forma como as coalizões se organizaram e construíram seus programas de governo também é uma novidade. O Barcelona en Comú, de Ada Colau, se define como uma plataforma cidadã com “estrutura dinâmica, sustentável e participativa”. Seu coração são as assembleias abertas por bairro e de onde surgem as propostas levadas à plenária. O Ahora Madrid, por sua vez, se define como iniciativa que busca “mais transparência, mais democracia e mais participação”, o que o levou a elaborar colaborativamente seu programa de governo, incluindo consulta aberta pela internet. Os dois se autoproclamam movimentos cidadãos, o que mexe com o imaginário popular e reforça a ligação que tem com movimentos sociais.

O Podemos, partido que surgiu dos protestos de 2011, compõe as duas coalizões. Mais do que isso, aparece muitas vezes como o grande protagonista das vitórias, o que tanto Ada Colau quanto Manuela Carmena fazem questão de negar. Elas relembram repetidamente a pluralidade de força e vozes que as elegeram e tentam driblar o “pablismo” – nome dado pelos críticos do Podemos ao personalismo de Pablo Iglesias, seu secretário-geral, eleito deputado europeu.

Não há dúvida de que as eleições expressaram a canalização de demandas por mudanças e da energia das ruas. Também é fato que se respira o ar da novidade e que houve uma “repolitização da vida” para ao menos parte da sociedade, como descreveu o pesquisador espanhol Amador Fernández Savater. O aumento de eleitores que compareceu às urnas nas últimas eleições refletem essa afirmação.

Mas, passadas as eleições, há quem aposte que o novo sucumbirá ao sistema, sem conseguir transformá-lo.

O desafio começa pela necessidade de dar concretude aos programas de governo com base nos quais foram eleitas. O contundente “Si, se puede!” ouvido à exaustão nos comícios e atos de apoio às candidatas dará lugar à priorização de políticas, orçamento e interlocutores. A luta contra a corrupção, central nos dois programas, deverá ir além da alegação de que “os bancos não têm nossos telefones e não podem nos comprar”, como disse Lorena Ruíz-Huerta, braço direito de Manuela Carmena, durante o ato de encerramento de campanha em Madri.

Outro desafio latente é a necessidade de se estabelecer alianças. A mais evidente é com o socialista PSOE, partido que até pouco tempo tinha o monopólio da esquerda e continua sendo o segundo partido mais votado nacionalmente, atrás do PP. Um de seus líderes, Pedro Sanchez, disse claramente que não pretende radicalizar a agenda do partido. Segundo ele, cabe às novas forças se adaptarem à “agenda de centro-esquerda e voltada à maioria social” que seu partido representa.

A forma como se dará a relação com os movimentos sociais, daqui para frente, é também incerta. Será preciso criatividade e jogo de cintura para absorver as expectativas daqueles que semearam a mudança. Nada garante que as assembleias e processos de construção coletiva que marcaram as campanhas conseguirão subir os degraus dos palácios oficiais.

Além disso, como em qualquer País, a sociedade civil organizada é diversa e a escolha dos interlocutores principais terá de acontecer e poderá frustrar atuais apoiadores. A influência que o Podemos exercerá nas novas gestões poderá, ainda, afastar alguns movimentos sociais, pois o partido está longe de ser unanimidade entre eles.

Por fim, a crise de representação e a confiança nas instituições políticas não desaparecerá da noite para o dia. A começar pela campanha de Manuela Carmena, que alegou não representar a ninguém, mas sim ser portadora de apenas “um pacto, um compromisso, dado que até agora a representação só nos trouxe mentiras e descrença – e, por isso, vamos governar a nós mesmos”. O sistema parlamentar no qual ela se inserirá não é, ao menos por enquanto, adaptado a esse ideal e depende de mecanismos de representação.

O que está então em jogo é a capacidade de novos atores lidarem com velhos desafios da política e não se transformarem em partidos tradicionais – movidos pela necessidade de se perpetuarem no poder e cada vez mais distantes dos cidadãos e daqueles que os elegeram.

Aos olhos atrevidos de uma brasileira, uma pista está em não permitir que os movimentos sociais se esvaziem e tornem-se menos reivindicadores, agora que seus pares estão no poder. Dessa distinção de papéis – na qual aos movimentos cabe uma vigilância crítica – depende a saúde da democracia. E não só na Espanha.

As eleições gerais de novembro, quando será escolhido o primeiro-ministro, serão um bom termômetro do fôlego das candidaturas cidadãs. Até lá seguem as apostas se o novo mudará o sistema ou se será mudado por ele.

*Lucia Nader é cientista política pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris – Sciences Po e atualmente bolsista da Fundação Open Society. Estuda a relação entre movimentos sociais, organizações da sociedade civil e instituições políticas. Está na Espanha acompanhando as eleições e seus desdobramentos

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Folha :: Movimentos sociais subvertem bipartidarismo em eleição na Espanha

Publicado na Folha de São Paulo, em 24/05/2015

Por Lucia Nader e Pablo Ortellado

Há exatos 4 anos, milhões de espanhóis tomaram as praças do país contra as medidas de austeridade propostas pelo então primeiro ministro socialista, José Luis Zapatero, exigindo uma “democracia real já”. Slogans como “Não nos representam” e “Nossos sonhos não cabem nas urnas”, disseminaram-se nos acampamentos em praças como o da Porta do Sol em Madri ou o da praça Catalunha em Barcelona.

Apesar dos slogans, uma parte dos manifestantes resolveu apostar na regeneração das instituições públicas participando do processo eleitoral – no ano passado, nas eleições para o parlamento europeu e, agora, nas eleições para os municípios e comunidades autônomas espanholas. Nas eleições europeias de 2014, duas iniciativas “cidadãs” e contra o establishment bipartidário espanhol entraram na disputa: o catalão Partido X e o Podemos, baseado em Madri.

Embora o Partido X não tenha conseguido votos suficientes para eleger eurodeputados, o Podemos conseguiu eleger cinco. Meses depois, algumas pesquisas de opinião já mostravam o novo partido como a maior força política em uma eventual eleição nacional.

O sistema bipartidário que desde o fim da ditadura franquista, em 1978, havia oposto conservadores do Partido Popular e progressistas do Partido Socialista Espanhol foi subvertido por novas forças políticas que diziam expressar a indignação que emergiu nos protestos de 2011.

A emergência de novos atores não se deu apenas à esquerda do espectro político. O Ciudadanos, partido mais antigo e de centro-direita, apareceu renovado e se expandiu prometendo a entrada na política de políticos não profissionais, de novas gerações e sem vínculos com a corrupção.

Candidaturas cidadãs

A tentativa dos movimentos sociais de regenerar a política se expressou nas atuais eleições em amplas coalizões que uniram, além do Podemos, ativistas, coletivos e partidos políticos alternativos.

As autodenominadas “candidaturas cidadãs” tiveram excelente desempenho nas duas principais cidades espanholas. Em Barcelona, Ada Colau, ativista antidespejo com longa participação nos movimentos sociais, venceu as eleições pela coalizão Barcelona en Comú, conquistando 11 das 30 cadeiras (concejales) em disputa. Na capital, a coalizão Ahora Madrid, apresentou a candidatura de Manuela Carmena, juíza aposentada, com histórico na luta pelos direitos humanos. A coalizão de Carmena ficou em segundo lugar, com 20 das 57 cadeiras em disputa, contra 21 conquistadas pelo Partido Popular. Apesar da vitória, o Partido Popular, perdeu a maioria absoluta e sofre seu maior golpe em 26 anos de poder em Madri. Há ainda a possibilidade de um acordo entre os partidos de esquerda que poderia levar Carmena a ser a prefeita de fato.

As duas coalizões roubaram a cena durante a campanha eleitoral e prometeram mudanças drásticas na forma de se fazer política. Já se diziam vitoriosas por terem elaborados seus programas de governo de forma colaborativa, serem autofinanciadas e terem como principais mensageiros “pessoas comuns” e não políticos profissionais.

Os 35 milhões de eleitores que foram hoje às urnas abriram a porta para uma profunda reestruturação do sistema partidário espanhol. A “geração das praças” compareceu às urnas, concorreu por elas, e aumentou a pressão para que as instituições políticas se renovem e sejam mais porosas às demandas que vem das ruas.

***
Lucia Nader é cientista política pela Sciences Po-Paris e Pablo Ortellado é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP. Ambos estão na Espanha, acompanhando as eleições e suas relações com os movimentos sociais.

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El País :: Um protesto contra todo o sistema político?

PABLO ORTELLADO / ESTHER SOLANO / LUCIA NADER – Publicado no El País em 14/05/2015

Durante a manifestação do dia 12 de abril, realizamos uma pesquisa de opinião com 571 manifestantes. Queríamos testar duas hipóteses. A desconfiança partidária constatada por outras pesquisas, no protesto de 15 de março, se limitaria ao PT ou se estenderia a todo o sistema político? As novas mídias e um comentarismo polemista estão emergindo como fontes centrais de formação da opinião política?

Com relação aos partidos e aos políticos, constatamos, entre os manifestantes, uma aguardada desconfiança na presidenta Dilma e no PT (96%). A oposição, no entanto, não se saiu muito melhor. O Datafolha havia mostrado que a maioria dos manifestantes de março se colocava entre o centro e a direita e tinha votado em Aécio Neves no segundo turno. Significaria isso maior confiança no PSDB? No domingo, apenas 23% confiavam muito em Aécio e 11% no PSDB como partido. Constatamos ainda um nível baixíssimo de confiança no PMDB (apenas 1% confiava muito) e na sua principal liderança, Eduardo Cunha (apenas 3%). Na lista dos políticos, Jair Bolsonaro despontou como nova liderança (19% confiavam muito), à frente de Marina Silva, com 15%. Os dados mostram que a desconfiança não se reduz ao PT, mas chega à oposição.

O nível de crédito ainda é baixo, mas maior nas organizações não governamentais e nos movimentos sociais (20% e 30%, respectivamente, confiam muito) sugerindo uma relação inversamente proporcional entre o grau de institucionalização e o grau de confiança. Os grupos liberais, convocantes da manifestação, tem o maior índice de confiança: 71% confiam muito no Vem Pra Rua e 53% no Movimento Brasil Livre. Com 25%, surpreende que o Movimento Passe Livre, de esquerda e associado aos protestos de junho de 2013, esteja à frente do convocante conservador Revoltados On Line (com 19%).

A desconfiança na imprensa também é grande entre os manifestantes (apenas 21% confiam muito). Surpreende a baixa confiança no influente Jornal Nacional (apenas 16% confiam muito), mas já era esperada uma confiança mais elevada na revista Veja (52% confiam muito) e nos comentaristas conservadores e polemistas como Raquel Sherazade (49%) e Reinaldo Azevedo (40%). Paulo Henrique Amorin, considerado mais à esquerda, mas com um estilo confrontativo, aparece em destaque também (28% confiam muito), sugerindo que o estilo pode ser mais importante que a ideologia.

Por fim, testamos a concordância dos manifestantes com boatos muito difundidos na Internet, alguns flagrantemente inverídicos. 71% dos manifestantes concordam que o filho de Lula é sócio da Friboi e 53% que o PCC é um braço armado do PT. Uma combinação entre a desconfiança na imprensa, a ascendência de fontes de informação sem verificação e a proeminência de comentaristas políticos que provocam controvérsia pode estar baixando a qualidade da informação que orienta o comportamento político.

Veja a íntegra da pesquisa feita na manifestação.

Pablo Ortellado é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP; Esther Solano é professora de Relações Internacionais da UNIFESP; Lucia Nader é cientista política pela Sciences Po-Paris e fellow da Open Society Foundations.

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