Back to the Future: What to Expect from NGOs and New Movements in Brazil?

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The Brazil Brown Bag Seminar Series invites you to its discussion entitled, ‘Back to the Future: What to Expect from NGOs and New Movements in Brazil?’ with Lucia Nader, a human rights and civil society organizations expert.

The lecture will cover expectations and challenges for civil society organizations in Brazil, as well as the role of “new” movements. As Ms. Nader puts it, “Even if mired in a deep crisis affecting the three brands of power, Brazil’s civil society still believes in democracy. Recent women and student’s mobilizations show the way into the future.”

Lucia Nader is a human rights and civil society organizations expert. She was an Open Society Foundations Fellow in 2015-16 and Executive Director of Conectas Human Rights from 2011-14. Lucia has a background in International Relations (PUC-SP, Brazil) and a master degree in Political Sciences (Sciences-Po, Paris). She is also a board member of several civil society organizations, including the Fund for Global Human Rights and the International Service for Human Rights.

Source: http://www.ilas.columbia.edu/event/back-to-the-future-what-to-expect-from-ngos-and-new-movements-in-brazil/

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(Re)pensando ONGs

Vídeo disponível em : https://www.facebook.com/ITSriodejaneiro/videos/1307352915971381/

Na Varanda #30 do ITS Rio, recebemos três mulheres incríveis para uma conversa sobre impacto e inovação em organizações não governamentais. Com Lucia Nader, ativista de direitos humanos e conselheira do ITS Rio, Gabi Agustini, fundadora e diretora da Olabi Makerspace, e Juliana Nolasco, do Comitê Gestor da Internet no Brasil e consultora do ITS Rio. Fonte: https://www.facebook.com/ITSriodejaneiro

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FIVE REASONS TO FEAR INNOVATION……and many other reasons to dare to innovate so as to adapt to today’s world

Original version published in the na SUR JOURNAL, in July 7, 2016

ABSTRACT (full article available at Portuguese, English and Spanish)

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In recent years, innovation has become a buzz word in the human rights sector. The concept is increasingly emphasised by funders and, consequently, non-governmental organisations (NGOs) are beginning to pay attention to it, but usually with reluctance and cynicism.

Wanting to better understand the origins of innovation and why rights based NGOs tend to instinctively resist it, Lucia Nader and José Guilherme F. de Campos interviewed over one hundred activists and human rights defenders.

Here they distil the results of their research and offer the five main concerns with innovation that were articulated during the interviews, specifically that (1) it is simply a fashionable word from the private sector in the Global North; (2) there is no real need for innovation when fighting for human rights since the underlying principles of the movement do not change; (3) it is unfair to test innovative concepts on those that the human rights movement seeks to protect; (4) innovation only results in creating more rights violations; (5) innovation brings uncertainties, which funders tend not to like.

Analysing each of these concerns in turn and presenting counter arguments, the authors conclude by suggesting five questions that organisations must ask themselves before embarking on a process of innovation.

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CINCO RAZÕES PARA TEMER A INOVAÇÃO…e tantas outras para ousar inovar para se adaptar ao mundo atual

Original publicado na Revista SUR, em 7/7/2016

RESUMO (o artigo completo está disponível em Português, Inglês e Espanhol)

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Nos últimos anos, inovação se transformou em uma palavra da moda. O conceito tem cada vez mais sido enfatizado por financiadores, e, consequentemente, organizações não governamentais (ONGs) estão começando a prestar atenção a ele, mas, geralmente, com certa relutância e cinismo.

Com a intenção de melhor entender as origens da inovação e por que ONGs de direitos humanos tendem instintivamente a resistir a ela, Lucia Nader e José Guilherme F. de Campos entrevistaram mais de uma centena de ativistas e defensores de direitos humanos.

Neste artigo, eles apresentam os resultados da pesquisa e discutem as cinco maiores preocupações com inovação que foram identificadas nas entrevistas, notadamente que (1) é simplesmente uma palavra em voga no setor privado do Norte Global; (2) não existe uma necessidade real de inovar quando se está lutando pelos direitos humanos uma vez que os princípios fundamentais do movimento não mudam; (3) é injusto testar conceitos inovadores naqueles que os movimentos de direitos humanos procuram proteger; (4) inovação gera mais violações de direitos; (5) inovação gera incertezas, o que os financiadores geralmente não gostam.

Ao analisar cada uma dessas preocupações e apresentar contra-argumentos, os autores concluem o artigo sugerindo cinco perguntas que as organizações devem se fazer antes de embarcar no processo de inovação.

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Arriscando e Inovando em Direitos Humanos

LUCIA NADER and JOSÉ GUILHERME F. DE CAMPOS 8 July 2016
Originalmente publicado no Open Global Rights – em Português e em Inglês

Em nossa pesquisa, profissionais de direitos humanos, ativistas, acadêmicos e financiadores nos deram várias razões para não inovar. No entanto, os riscos são tão grandes quanto alguns pensam?
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É inegável que no mundo dos direitos humanos exista uma forte pressão, incluindo por parte de financiadores, para que se busque “o novo”. É também inegável que nossas sociedades estejam passando por mudanças que não podemos ignorar. Mas quando precisamos inovar? E como é que as organizações de direitos humanos – baseadas em valores inegociáveis – sentem-se diante dessa necessidade? Entre 2015-2016, entrevistamos 102 pessoas para fomentar um debate público sobre como organizações de direitos humanos da sociedade civil, incluindo financiadores, têm reagido e adaptado a tendências atuais, como por exemplo a multiplicidade de agendas, crescente fluxo de informação, ativismo não-institucional e crise de representatividade do Estado. Entre os entrevistados para a pesquisa “Organizações Sólidas em um Mundo Líquido”, tivemos acadêmicos de renome, representantes de ONGs e fundações de diversos países.

Inovação não é um panaceia Em geral, a resistência à inovação foi um tema recorrente. Entrevistados discordaram da tese segundo a qual inovar seria sempre bom – ou bom em si mesmo. A eterna busca pelo novo pode levar organizações a perder seu foco ou a se distrair constantemente com novos programas e projetos. Como Johanna Mair e Christian Seelos observaram, inovação não é um “santo graal”, apesar de muitas pessoas aparentemente se referirem a esse conceito como uma “panaceia para todos os males.” Não obstante, com base nas respostas que obtivemos, concluímos que resistir à inovação por medo de correr riscos também pode ser um erro. A inovação é importante, mas não deixa de ser uma escolha de cada organização – e não um imperativo. Pode ser um processo simples ou complexo, que requer ao mesmo tempo humildade e ambição.

Como, então, ONGs podem inovar de forma inteligente, sem se curvar a tendências e chavões?

A inovação depende tanto de fatores externos como de fatores internos, que dizem respeito ao contexto no qual as organizações atuam, bem como às suas características institucionais. Tendo isso em mente, cada organização precisa ajustar a definição de inovação ao seu contexto específico, para que esse processo seja útil para a sua própria missão, e esteja em sintonia com seu modus operandi, valores, estrutura e história.

Pelas entrevistas pudemos perceber que, pelo fato dos valores e princípios de direitos humanos serem inegociáveis, a ideia de inovação pode tornar-se muito desconfortável. Neste caso, o medo geral é que levar inovação ao extremo pode fazer com que os valores fundamentos de direitos humanos deem lugar ao relativismo.

Além disso, as vítimas de violações de direitos humanos já são vulneráveis demais para serem usadas como experimentos. Anos de experiência mostram, por exemplo, que há um “protocolo” a ser seguido ao colher depoimentos de vítimas de tortura, para que seu sofrimento e suas necessidades psicológicas sejam respeitados. Se inovarmos testando uma metodologia completamente nova, corremos o risco de ignorar sem a devida cautela estes protocolos já consolidados e de suma importância.

Em muitas ocasiões, no entanto, a inovação pode nascer da necessidade ou a pedido das próprias vítimas ou beneficiários. Como Susi Bascon, da Peace Brigades International (Reino Unido) nos contou: “Para mim, a necessidade (ou não) de inovar e como vamos fazê-lo [surgem] de conversas atentas com defensores dos direitos humanos e vítimas, e não de outros indicadores … Se perdermos contato com pessoas de fora da organização, como vamos saber quando e onde inovar?” Metodologias de planejamento com base na chamada abordagem centrada no ser humano são um bom exemplo e podem ser úteis para manter contato próximo e contínuo com os beneficiários e colocar as pessoas no centro da ação de uma organização, incluindo os integrantes de sua equipe.

A inovação é muitas vezes entendida apenas como adaptação às novas tecnologias e formas de comunicação, utilizar ferramentas on-line e integrar a “cultura de tecnologia” ao dia-a-dia da organização. Por um lado, a tecnologia pode gerar novas violações de direitos, como por exemplo a vigilância em massa por parte do Estado e ameaças à privacidade por empresas privadas. Os avanços tecnológicos podem, ainda, agravar a desigualdade, aumentar o desemprego e concentrar ainda mais a riqueza nas mãos de poucos poderosos. Miguel Lago, da Nossas Cidades (Brasil), também ressaltou as ambiguidades da aparente dicotomia entre on-line e off-line: “O primeiro tende a gerar envolvimento e laços relacionais superficiais, porém amplia o espectro de participação; ao passo que o segundo tende a gerar laços relacionais mais profundos sem ter, porém, o mesmo poder de mobilização.”

Por outro lado, tecnologia e conectividade podem ser benéficas para ONGs. Ferramentas, tais como aplicativos de celular, vídeos e outras “podem acelerar o processo de verificação de provas de violações de direitos, bem como aprimorar a qualidade e reduzir o tempo gasto na preparação de relatórios sobre violações,” disse uma das representantes do The Whistle, um aplicativo desenvolvido especificamente para enfrentar este desafio. Carroll Bogert da Human Rights Watch (EUA) ilustrou essa tendência: “Pela primeira vez, o número de vídeos que fizemos denunciando violações superou o número de relatórios impressos. Hoje, um pesquisador vai para missão a um país levando consigo uma câmera, ele(a) tuita durante a investigação, etc. Temos que nos adaptar”, nos disse.

Muitos entrevistados também relataram que o modelo de financiamento de uma organização influencia – e muito – em sua capacidade e disposição em inovar. Não há garantias de que novos métodos funcionarão. “Não temos dinheiro para errar. O modelo atual de financiamento da maioria das organizações não permite que elas ousem”, observou Ana Valéria Araújo do Fundo Brasil de Direitos Humanos. Foi quase unânime a afirmação de que financiamentos previsíveis, de longo prazo, e apoios institucionais – ao invés de financiamento por projeto – geram um ambiente mais propício a que organizações inovem e arrisquem mais. Esse tipo de financiamento também permite um diálogo mais fluido e honesto entre financiador e financiado, em que os dois lados saem ganhando.

Inovar ou não inovar?

Inovação não significa joga fora tudo o que foi construído, ignorando o histórico da organização, diminuindo a importância dos valores, princípios, persistência e conhecimento acumulados. Ousar e arriscar em novas estratégias, processos ou projetos pode, ou não, ser uma forma apropriada de lidar com velhos desafios. Um dos entrevistados nos disse que “uma organização precisa ser suficientemente sólida para poder ser líquida, se reinventar,” alertando para a importância de se buscar um equilíbrio entre persistir e inovar.

Além disso, Johanna Mair teve o cuidado de ressaltar que a busca por impacto não deve ser o único fator a levar uma organização a inovar: “O principal erro é medir o sucesso de uma inovação apenas por seu impacto. Inovar, se bem feito, também aprimora processos internos, o clima organizacional, a motivação da equipe e leva a avanços cognitivos.”

Ao desenvolver novos métodos, ONGs devem fazer uso de sua curiosidade. Recomendamos que organizações se perguntem o que inovação significa especificamente para eles; por que, onde e como elas desejam inovar; e quem vai liderar e participar desse processo. Nunca teremos todas as respostas e riscos serão assumidos. Para algumas organizações e indivíduos, este nível de risco é aceitável, mas para outros pode não o ser.

O que para algumas organizações é uma inovação, para outras pode ter o nome de ousadia, abertura a novos riscos ou adequação ao mundo atual. A questão, portanto, não é “inovar ou não inovar?”. A pergunta crucial é quais são as melhores formas de promover direitos hoje.

**Uma versão mais longa desse artigo foi publicada em Inglês, Espanhol e Português na edição 23 da SUR – Revista Internacional de Direitos Humanos.

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Taking chances and innovating in human rights

LUCIA NADER and JOSÉ GUILHERME F. DE CAMPOS 8 July 2016
Originally published at Open Global Rights – in English and in Portuguese

In our research, human rights workers, academics, activists and funders gave us a lot of reasons not to innovate. But are the risks as big as some might think?
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It is undeniable in the human rights world that there is a pressure, including from funders, to seek “the new”. It is also undeniable that our societies are undergoing changes we can not ignore. But when is innovation necessary? And how do human rights organizations — founded upon non-negotiable values—feel about it? During 2015-2016, we interviewed 102 people to foster a public debate on how rights-based civil society organizations, including funders, are reacting and adapting to contemporary trends, such as multiplicity and pace of information, non-institutional activism and crisis of representation of the state. Interviewees for the research “Solid Organizations in a Liquid World” included key academics, representatives of NGOs and foundations from several countries.

Innovation is not a panacea. Overall, resistance to innovation was a common theme. Respondents disagreed with the assumption that innovation is always good—or good in and of itself. Perpetually seeking the new can cause organizations to lose focus or remain continually distracted by new programs and projects. As Johanna Mair and Christian Seelos note, innovation is not a “holy grail” despite the fact that many people seem to be using it as a “panacea for all ills.” But, based on the responses we received, we believe that to resist innovation for fear of taking risks can also be a mistake. Innovation is important, but, at the end of the day, it is each organization’s choice—not an imperative. It can be a simple or a complex process, that requires humility and ambition. How then, can NGOs use innovation wisely, without pandering to trends and buzzwords?

Innovation depends both on internal and external factors, related to the context in which the organization operates, as well as group factors and organizational factors. In this context, each organization needs to adjust the definition of innovation in order to make it useful to its mission, and be in tune with the modus operandi, values, structure and history of each organization.

Furthermore, some interviews pointed out to the fact that human rights values and principles are non-negotiable and this can make the idea of innovation very uncomfortable. In this case, the overarching fear is that innovation pushed too far could also cause core human rights values to be lost in an argument of relativism.

In addition, victims of human rights violations are already too vulnerable to be the target of experiments. Years of experience show, for instance, that there is a “protocol” to be followed when hearing victims of torture, to respect their suffering and their psychological needs. If we innovate by testing a completely new methodology, we risk disregarding these established and important protocols without due caution.

In many situations, however, innovation can arise from the need or demand of the victims or beneficiaries themselves. As Susi Bascon, from Peace Brigades International (UK), told us: “For me, the need (or not) to innovate and how we will do it [comes] from listening in-depth to human rights defenders and the victims, and not through other indicators…If we lose contact with people outside the organization, how will we know when and where to innovate?” Planning methodologies based on the so-called human-centered approach are a good example of this and can be helpful in keeping close and continuous contact with the beneficiaries, putting people in the center of an organization’s action, including its staff members.

Also, innovation is often understood as solely adapting to new technologies and forms of communication, to make use of online tools and integrate “tech culture” to the day-to-day of the organization. On one hand, technology can be the cause of new rights violations, including state surveillance and privacy threats by private corporations. Technological advancements can also deepen inequality, raise unemployment and further concentrate wealth in the hands of the powerful. Miguel Lago, from Nossas Cidades in Brazil, also stressed the ambiguities of the apparent dichotomy between online and off-line: “The first tends to create superficial involvement and relational ties. However, it often broadens the spectrum of participation, while the second tends to nurture deeper relational ties without necessarily the same power of mobilization.”

On the other hand, technology and connectivity can be beneficial to NGOs. Technological tools such as mobile applications, videos and other tools “can help speed up the process of checking evidence and improving the quality and time spent in drafting reports on violations,” said one of the representatives of The Whistle, an app designed to address this challenge. Carroll Bogert from Human Rights Watch (US) illustrated this trend: “For the first time, the number of videos we made reporting violations exceeded the number of printed reports. Today a researcher goes to a country visit taking along a camera, s/he tweets during the investigation, etc. We have to adapt”, she told us.

In addition, many interviewees highlighted that the funding model of an organization has a lot of influence in its ability and willingness to innovate. There are no guarantees that new methods will work. “We cannot afford to make mistakes. The current model of financing of most organizations does not allow them to dare,” noted Ana Valeria Araujo from Fundo Brasil de Direitos Humanos in Brazil. Respondents were also almost unanimous in saying that predictable, long-term and institutional support—rather than project-specific support—are more likely to foster audacity and risk-taking. This type of financing also enables a more fluid and honest dialogue between the funder and the funded, where both sides win.

To innovate or not to innovate?

Innovation does not have to mean throwing out everything that has been built, ignoring its record, diminishing the importance of values, principles, persistence and expertise. To be bold and venture into new strategies, processes or activities may be well suited to address old challenges—or it may not. One of our respondents told us that “an organization needs to be strong enough to be able to be fluid, to reinvent itself”, stressing the importance of seeking a balance between persisting and innovating.

In addition, Johanna Mair was careful to point out that innovation should not be only driven by aiming impact: “The vital mistake we often make is to measure the success of an innovation only by its impact. Innovating, if done well, also leads to improvements in internal processes, organizational environment, motivation and cognitive improvements.”

NGOs should be curious when developing new methods. We recommend asking very specific questions about what innovation means for them, why, where and how they want to innovate, and who will lead and participate in this process. At the same time, innovating will always mean not having all the answers and assuming risks. For some organizations or individuals, this level of risk is acceptable, but it might not be for others.

What some organizations call innovation, others may call boldness, risk-taking or adjustment to the modern world. The question, then, is not “to innovate or not to innovate?” Rather, the real question is what are the very best ways to advance rights today.

**A longer version of this article is published in English, Spanish and Portuguese in issue 23 of SUR International Journal on Human Rights.

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A plutocracia não cabe no orçamento (Laura Carvalho, Folha de São Paulo)

9 de junho de 2016 – original em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/laura-carvalho/2016/06/1779720-a-plutocracia-nao-cabe-no-orcamento.shtml)

No levantamento realizado pelos pesquisadores Pablo Ortellado, Esther Solano e Lucia Nader na avenida Paulista durante as manifestações pró-impeachment do dia 16 de agosto de 2015, dois temas chamaram a atenção. Entre os manifestantes, 97% concordaram total ou parcialmente que os serviços públicos de saúde devem ser universais, e 96%, que devem ser gratuitos. Já sobre a universalidade e a gratuidade da educação, o apoio foi de 98% e 97% dos manifestantes, respectivamente. “Isso é um resquício de junho de 2013”, afirmou Pablo Ortellado a uma reportagem do jornal “El País” de 18 de agosto de 2015.

O resultado deste tipo de levantamento, quando somado aos resultados nas urnas das últimas quatro eleições presidenciais, sugere que o pacto social que deu origem à Constituição de 1988 não foi desfeito. Ao contrário, as demandas nas ruas desde 2013 e nas ocupações das escolas desde 2015 têm sido por melhorias nos serviços públicos universais, e não pela redução na sua prestação.

A regra Temer-Meirelles prevê que as despesas primárias do governo federal passem a ser reajustadas apenas pela inflação do ano anterior. Se vigorasse no ano passado, e outros gastos não sofressem redução real, as despesas com saúde teriam sido reduzidas em 32% e os gastos com educação em 70% em 2015.

Pior. Se o PIB brasileiro crescer nos próximos 20 anos no ritmo dos anos 1980 e 1990, passaríamos de um percentual de gastos públicos em relação ao PIB da ordem de 40% para 25%, patamar semelhante ao verificado em Burkina Faso ou no Afeganistão. E, se crescêssemos às taxas mais altas que vigoraram nos anos 2000, o percentual seria ainda menor, da ordem de 19%, o que nos aproximaria de países como o Camboja e Camarões.

“A Constituição não cabe no Orçamento”, argumentam seus defensores, na tentativa de transformar em técnica uma decisão que deveria ser democrática. De fato, há uma contradição evidente entre desejar a qualidade dos serviços públicos da Dinamarca e pagar impostos da Guiné Equatorial.

O que esquecem de ressaltar é que os que pagam mais impostos no Brasil são os que têm menos condições de pagá-los. Se os que ganham mais de 160 salários mínimos por mês têm 65,8% de seus rendimentos isentos de tributação pela Receita Federal, fica um pouco mais difícil determinar o que cabe e o que não cabe no Orçamento.

O fato é que as propostas do governo interino não incluem nenhum imposto a mais para os mais ricos, mas preveem muitos direitos a menos para os demais.

Os magistrados conseguem reajuste de seus supersalários, mas a aposentadoria para os trabalhadores rurais é tratada como rombo.

A cultura, a ciência e a tecnologia ou o combate a desigualdades deixam de ser importantes. O pagamento de juros escorchantes sobre a dívida pública não é sequer discutido, mas as despesas com os sistemas de saúde e educação são tratadas como responsáveis pela falta de margem de manobra para a política fiscal.

Essas escolhas estão sendo feitas por um governo que não teve de passar pelo debate democrático que só um processo de eleições diretas pode proporcionar. A democracia caberia no Orçamento. O que parece não caber é a nossa plutocracia oligárquica.

* Laura Carvalho é professora do Departamento de Economia da FEA-USP com doutorado na New School for Social Research (NYC). Escreve às quintas-feiras.

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Mundo líquido: por que as ONGs e financiadores precisam ser mais flexíveis?

Entrevista para o Mobiliza (original publicado em http://www.mobilizaconsultoria.com.br/mundo-liquido-por-que-as-ongs-e-financiadores-precisam-ser-mais-flexiveis/)

Lucia Nader

Mundo líquido: por que as ONGs e financiadores precisam ser mais flexíveis?
7 de junho de 2016

Lucia Nader*, ativista de direitos humanos, é fellow da Open Society Foundations desde 2015, com quem realiza a pesquisa “Organizações Sólidas em um Mundo Líquido”. Para isso, ela conversou com 102 lideranças de organizações não governamentais (ONGs), acadêmicos e financiadores da área de direitos humanos. Nesta entrevista exclusiva, Lucia compartilha as principais conclusões do estudo e alguns caminhos para que as instituições possam adaptar-se a uma sociedade cada vez mais conectada e politicamente envolvida em causas sociais.

Mobiliza – Lucia, conte-nos como surgiu a ideia de realizar essa pesquisa.
Lucia Nader – Atuo na área social há 21 anos, sendo os últimos 13 especialmente dedicados aos direitos humanos. Em 2015, dei início a essa pesquisa para explorar como as organizações sociais e os financiadores vêm se adaptando à sociedade contemporânea, tendo de interagir com três tendências: diversidade de atores e rapidez da informação; o papel político do indivíduo, que hoje defende a própria causa (ou causas) e nem sempre se envolve com organizações e movimentos; e a crise de representatividade do Estado e seu reflexo nas ONGs que orbitam em volta dele. Um exemplo concreto: as manifestações que aconteceram no Brasil em junho de 2013. Vimos ali várias agendas, indivíduos querendo falar por si só e uma ampla crítica ao sistema. No meio de tudo isso, qual é o papel das ONGs e financiadores que estão historicamente lutando por um país melhor?

Mobiliza – Você sente que as ONGs e os financiadores são afetados por esse novo contexto?
LN – Sim. Tenho percebido a ansiedade das instituições sociais em adaptar-se a essa nova conformação, porque existem muitas dúvidas de como lidar com temas antigos, tão sólidos e estruturais (suas causas) e, ao mesmo tempo, estar aberto ao novo, ser mais flexível etc. Por exemplo, essas mudanças impactam uma organização que trabalha a 15 ou 20 anos no combate à tortura e como? Foi isso que tentei descobrir com minha pesquisa. Uma das conclusões é que as organizações estão sentindo a necessidade de se planejar com mais flexibilidade, deixar espaço para oportunidades conjunturais ou imprevistos. Há também uma percepção de que é preciso arriscar mais, testar estratégias novas.

Mobiliza – A solidez pode se tornar um obstáculo…
LN – Ser uma organização sólida não é um problema. Normalmente isso permite realizar ações de longo prazo, com impacto, porque mantêm uma equipe qualificada, estratégias diversificadas e articulação com interlocutores variados. O problema é quando a solidez deixa a ONG hermética demais e muito pesada. Não só as ONGs, os financiadores também.

Mobiliza – Então, como quebrar essa rigidez excessiva sem perder o foco?
LN – É importante que as ONGs e os financiadores façam algumas reflexões e isso está começando a ocorrer. Por exemplo, avaliar se devem estar mais próximos da sociedade. Se a resposta for sim: como fazer isso sem se tornar refém da opinião pública, por exemplo, buscando oportunidades conjunturais para defender suas causas. Ou seja, estar mais antenado com o que acontece na sociedade e na política. Também podem pensar “fora da caixa”, lançando mão de estratégias diferentes das que estão sempre à disposição, envolvendo mais risco e inovação. Um terceiro ponto, muito importante, é analisar de que forma se relacionam com o público externo e interno, ou seja, os beneficiários de suas ações e as pessoas que atuam nas suas equipes. Trabalhar, por exemplo, em organizações de direitos humanos, é penoso, custoso, dolorido. As pessoas são movidas por um tipo de raiva gerada pela injustiça. Em alguns casos sentem culpa por serem privilegiadas. Frustram-se muito porque nem sempre os resultados esperados são alcançados. Ou seja, é preciso olhar para a saúde física e emocional desses indivíduos. Como manter a criatividade e a resiliência para que continuem trabalhando em ações que fortaleçam a causa? As ONGs sólidas precisam saber o que move as pessoas a erguer suas bandeiras e as consequências de tudo isso para suas vidas. Acredito que o modelo de financiamento seja um componente que influencia tudo isso.

Mobiliza – De que forma esse modelo interfere no bem-estar das pessoas e na sustentabilidade sadia das instituições?
LN – As ONGs que entrevistei são brasileiras, europeias ou norte-americanas e têm de 15 a 20 anos, porte médio, equipe fixa, financiadas, principalmente, por grandes fundações internacionais – como a Fundação Ford e Open Society. É uma relação complexa, porque as instituições correm o risco de se preocupar mais com sua perpetuação (conseguir recursos para sobreviver) do que com sua pertinência e seu impacto – como bem me disse um dos entrevistados. Normalmente, o financiamento é por projetos e em um período de um ou dois anos, amarrando-se a atividades que não se sabe se terão sentido no médio prazo e sem flexibilidade para mudar o que foi prometido. Se queremos nos adaptar ao mundo atual é fundamental que o financiamento seja de longo prazo e institucional, prevendo a possibilidade do erro para que possam inovar e se arriscar mais, sem medo.

Mobiliza – E isso é responsabilidade do financiador?
LN – Em grande parte, sim. A relação dele com a ONG é construída com base na confiança, na troca de experiências? Ele conhece a realidade da instituição? Há de alguma forma um incentivo para que as organizações ousem, caso queiram? O processo burocrático (relatórios etc.) está saudável ou toma mais tempo da organização do que desenvolver as atividades que se propôs? Tanto o financiador como a ONG tem, a priori, o mesmo objetivo: alcançar alguma mudança ou melhoria na sociedade. As respostas a essas perguntas são fundamentais para que isso não se perca de vista.

Mobiliza – Na sua opinião, quais mudanças podem ajudar as organizações sólidas a se tornarem mais flexíveis e aproximarem-se de seus públicos?
LN – Há vários pontos importantes. Por exemplo, a maneira como elas se comunicam. Hoje essa comunicação é de mão dupla, e quase imediata, especialmente nas mídias sociais. É importante aproveitar algumas grandes notícias para falar da causa de um jeito mais quente. Não é só o relatório institucional, que tem sua valia e público específico. Percebe-se que algumas instituições têm medo de perder o controle sobre a informação, de sua narrativa. Isso é natural. No entanto, pode ser algo benéfico porque as pessoas vão reproduzir a sua mensagem de um jeito novo, mais palatável, que talvez não siga as normas técnicas esperadas, mas que é uma maneira diferente de divulgar a causa. A inovação é uma palavra superinflacionada. Está na moda. Muitas ONGs torcem o nariz ao ouvi-la. Mas é uma realidade. Então, é importante que cada organização defina para si o que é inovar, no que ela quer inovar (processos, estruturas, estratégias, linguagem?). Não precisa ser só na ponta. Quem quer inovar tem de contar com uma equipe que acredite na causa, mas que não tenha receio de errar, de recomeçar, de correr riscos. Do contrário, a solidez vai persistir de um jeito hermético, distanciando a organização cada vez mais da atual realidade.

Mobiliza – Para quem quiser acompanhar a pesquisa e saber mais, onde procurar informações?
LN – Estou construindo uma séria de vídeos, de três minutos, que sintetizam os temas da pesquisa. Já tenho dois no Youtube. O primeiro explora as três tendências, que citei nesta nossa conversa. O segundo entra no tema da inovação. Também mantenho uma página no Facebook e escrevo em um Blog. Tem bastante informação para quem quiser se aprofundar.

*Lucia Nader é pós-graduada em Desenvolvimento e Organizações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po) e bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi diretora da Conectas Direitos Humanos de 2011 a 2014.

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Video 2 – What a hell is innovation?

In this second video of the series, Lucia explores reasons why rights-based NGOs resist to innovation. She also explores the questions: (i) is there a single definition of innovation? (ii) why should NGOs innovate? and (iii) what are the factors that influence in innovation? and (iv) Innovation always occurs in relation to the outside world?

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“Pagamos los justos por pecadores” – interview with Anthony Romero, ACLU

April 5th, 2016

ROMERO

Created almost 100 years ago, ACLU – American Civil Liberties Union is one of the oldest NGOs in the US. The organization is supported by more than 50.000 members and has 50 offices spread across the country. Its goal is “to defend and preserve the individual rights and liberties guaranteed by the Constitution and laws of the United State”.

I just interviewed Anthony Romero, ACLU’s director for the last 14 years, who told me how the organization is being challenged and is trying to adapt to contemporary societies.

1) Do you think NGOs are affected by the changes in the pace of information, the role of individuals as political actors and the crisis of representation of the state (the 3 main tensions I am analyzing in this research)?

Yes, totally. The pace of information translates into the need of NGOs to respond much quicker. The “turn around” and the response have to be quicker. We have to have much more clarity about our priorities – as it is impossible to track every development of every issue we work on – and to polish our many channels of communication with our societies. If you take too long to react, it is too late.

As for the role of individuals outside organizations, yes, there is much more individual kind of activism that enable and empower people. This is not an entirely new phenomenon, as we had spontaneous movements before, but now they are much more empowered with the new technologies. People expect to be able to voice their opinions and to get an answer, and quickly. For instance, our blog is today a place of dialogue and not a one-way communication. This is why we have started to develop tools to empower individual as political actors. One example is the Mobile Justice App – to film police conduct and send it to us. This increases the demands dramatically and you have to answer one by one. Now we have a “virtual intake”, 24 hours a day.

Finally, the crisis of representation of the state…I think it is more a perception of the whole ecosystem we are on. The crisis of belief in governments affects NGOs. A lot of individuals tell me “I don’t think any of these will matter”.

2) And how can NGOs face all these challenges?

Today we have to be have more clarity of what our priorities are, to be more transparent on what we want to do, how we are going to do it and if we achieved the results we wanted or not. We almost have to prove to people that they should not be that cynical about our work. “Pagan los justos por pecadores”. In other words, the cynicism around the state representation and effectiveness also affects how people see NGOs.

3) So we should worry that some people don’t trust NGOs?

Yes. ACLU’s membership is decreasing year after year, since the election of president Obama. A lot of people saw Bush as “crisis years” and they wanted to associate themselves to an organization to make a difference. This has changed with Obama. The only membership organization I know that the membership is increasing is Planned Parenthood – as there is a big buzz around abortion.

To face that we have been investing more on the “local”, states’ level, and to communicate better around the sense urgency. People are worried about what happen near them and not necessarily what is happening in Washington and at the Supreme Court.

4) How is currently the balance between legal and political work at ACLU?

One of our priorities is to do more political work, lobby, advocacy. Sometimes it is better to prevent a law from occurring than to litigate against it afterwards. It helps also to mobilize constituencies. We don’t need the public to bring lawsuits: I need lawyers and clients. On political work, we need the public and people can make a difference. If we can use constituency, members and supporters to help to push our agendas changes can happen.

Three years ago, we had 250 litigators and 70 working at staff with advocacy, with legislators at state and national level. In the last years, the political team is really growing.

One challenge for this is funding: the political work can sometimes not be paid with the grants we receive from big foundations – either because of the grants’ focus or due to legal and taxes constraints. So the political work is severely underfunded and we are trying to convince funders of its importance.

5) What else could be improved in the way ACLU is funded?

Most of the funding is still very project specific and take too long to be approved. An example: there were 31 governors that, after the San Bernardino case, said they were not receiving Syrian refugees anymore. So, 24 hours latter, we brought lawsuits against 3 states and won. If I had tried to convince my funders, I would have lost the opportunity and the timing. I decided to act right away, using some of the general operating support. By trying to be so strategic, having goals, results, indicators, … funders don’t react to opportunities or challenges we can not anticipate. And this is key today if we want to have impact.

6) Do you believe less in the rule of law and justice institutions than you use to?

No. It has not changed. The law has always been an effective tool for change and also has always been used by our opponents. Today we are more sophisticated and smarter. What is different is that today there are many more groups using the law against us. Fifty years ago there were not many US groups on the right of the political spectrum. Today we have many organizations from the right: the law is being used to pursue a conservative agenda. American Center for Law and Justice and Alliance Defending Freedom are two good examples. They are anti-LGBT cases, anti-abortion, anti-affirmative action at the Supreme Court, for instance. They are pretty much focused on the family and traditional values. We are in opposite sides.

7) And, I am curious to know what to expect from the future US president, even if this is not part of my research…

Donald Trump and Bernie Sanders have tapped to an angry populist movement in their respective parties. Is it not clear that any president will really be able to change the system in the way they are promising. I am worried that this kind of moment and investment in the cynicism towards institutions can be bad after all. What will happen when these promises based on cynicism against the State are broken? No one knows.

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